V Domingo da Páscoa
C
«Dou-vos
um mandamento novo que vos ameis uns aos
outros.»
Para
muitos de nós, os mandamentos de Deus identificam-se com o
Decálogo, as 10 palavras entregues por Deus a Moisés no monte
Sinai. Só que os rabinos de Israel, depois de uma análise atenta
dos textos da bíblia e das tradições dos antigos, tinham
estabelecido que os mandamentos de Deus não eram 10, mas 613. E,
Como se isso não chegasse estes, tinham deduzido de cada um deles
uma míriade de prescrições e proibições, todas gravemente
vinculadoras, que tornavam praticamente impossível a sua
observância.
Lendo os evangelhos, fica-se com a impressão de que a Jesus essas
prescrições pareciam demais, considerava-os um peso opressor e
insuportável (Mt 11, 28) e que sentia a necessidade de as resumir e
reduzir ao essencial
Um dia, convidado a fazer a lista dos mandamentos indispensáveis
para alcançar a vida eterna, apela para o mesmo decálogo, mas não o
cita todo, limitando-se a recordar os 6 preceitos que regulam as
relações do homem entre si (Mc 10, 19): não matar, não cometer
adultério, não roubar, não levantar falso testemunho, respeitar Pai
e mãe, não enganar os outros.
Duma outra vez, quando lhe pediram para indicar o primeiro dos
mandamentos, reduz toda a lei ao Amor de Deus e ao próximo (Mc 12,
29-31). De 613, Ele passa, pois, primeiro para 6, e depois para
2.
Mas não acaba assim, durante a última ceia, no evangelho que
acabamos de ouvir já nem sequer falará de dois, mas de um só
mandamento: “dou-vos um mandamento
novo que
vos ameis uns aos outros. Por isso todos saberão que sois meus
discípulos: se vos amardes uns aos outros”. Pouco antes da sua
morte, antes de abandonar o cenáculo e de se dirigir para o monte
das oliveiras, onde será preso, retoma este tema uma vez mais: “é
este o
meu mandamento,
que vos ameis uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 9-17).
Confrontando as duas formulações do «único mandamento», notamos uma
pequena mas significativa diferença. Antes, Jesus fala de “novo
mandamento”, e depois do “seu mandamento”; quase como se já não
fosse «novo».
Quando João escreveu este discurso, o Mestre já tinha passado pela
paixão e morte e já tinha ressuscitado e entrado na glória do Pai.
Tinha sido o primeiro a pôr em prática o «mandamento novo»: amara
até à doação da vida. Eis o motivo porque o mandamento já não é
«novo», mas é o «seu», o que ele pusera em prática. A medida do
amor ao próximo já não é a indicada no AT: como a ti mesmo (Lv 19,
18), mas, como eu vos amei. E com esta expressão Jesus não pode
senão referir-se ao amor supremo que ele manifestou na cruz.
Assim, o Evangelho de hoje não se deve, pois, ler como se fosse a
gravação exacta das palavras proferidas durante a última ceia, mas
como um discurso que o ressuscitado dirige hoje a todos os seus
discípulos.Recordamos que os rabinos impunham muitos mandamentos,
enquanto Jesus os sintetiza num só: o amor ao homem. Este é o único
modo que temos de demonstrar a Deus o nosso amor: «quem não ama o
irmão que vê não pode amar a Deus que não vê, como afirma 1Jo 4,
20. É verdade que os mandamentos são muitos, mas é importante
sublinhar que eles são apenas explicitações dum único mandamento,
daquele que Jesus pôs em prática de modo perfeito: o amor aos
homens.
Hoje em alguns sectores da Igreja, há um desejo de voltar às
numerosas regras que no passado estabeleciam de modo claro e
minucioso o comportamento correcto em todos os capítulos morais.
Trata-se de uma saudade compreensível, na medida em que revela a
necessidade de saber, a cada momento, com segurança, o que se deve
fazer. Mas esta atitude manifesta também o medo de se confrontar,
momento a momento, com as necessidades sempre novas e imprevistas
dos irmãos. E esconde também um perigo: o de recair… nos «613
mandamentos» dos judeus. O «mandamento novo» exige atenção
constante, fantasia, discernimento, coragem de tomar decisões,
mesmo com risco de errar. Não se pode reduzir a fidelidade a
tradições que perderam todo o valor, não se pode identificar com a
observância formal de normas externas a que não corresponde a
adesão do coração e não se pode identificar também com a prática de
prescrições secundárias impostas em nome de Deus.
Lendo com atenção o trecho de hoje, notamos que Jesus espera que se
afaste Judas, que se tinha colocado à margem da Comunidade e já
tinha tomado a sua opção, para fazer a sua declaração de amor.
Jesus respeita a decisão de Judas e não o retém com declarações de
amor que ponham em evidência a sua traição. Deixa-o sair e só
depois fala aos seus companheiros sobre o que os deve distinguir
entre os outros: saber propor-se até ao último lugar para que todos
se sintam dignificados. O amor que surge isoladamente e de forma
egoísta nunca poderá ser sinal de Cristo, porque para que tenha
pleno sentido e gratuidade só poderá surgir da experiência de Deus
na Comunidade, não de uma relação intimista com Deus, mas de uma
experiência de amor mútuo, vivido como «húmus» da vida quotidiana
da Comunidade de Jesus. A primeira leitura diz-nos que a
referência, o lugar de onde se sai e ao que se regressa é sempre a
Comunidade dos irmãos, o ponto seguro onde cada um recorre para se
restabelecer, alimentar-se, para descansar e fazer projecto de
futuro, onde tomamos consciência da urgência de estender o Reino de
Deus a toda a realidade humana. É a Comunidade, com o Espírito, a
que a envia a proclamar o Reino até aos confins da terra.
Neste discurso, notamos também que o Jesus se dirige directamente
aos membros da Comunidade e só a eles exorta a que estejam unidos e
se amem mutuamente. É uma limitação, mas contém um ensinamento
importante, antes de falar de amor e de paz aos outros, é
necessário cultivar o amor e a paz entre nós. Assim, se numa
Comunidade falta este sinal distintivo, fica reduzida a
observâncias, códigos, hábitos, culto. Se falta o amor, pode-se
dizer que a comunidade perdeu a sua identidade, não tem nada a ver
com a novidade de Cristo. É uma comunidade envelhecida.
Os discípulos aprendem de seu mestre não uma doutrina, mas um
comportamento (comentar o filme de Mel Gibson): não se distinguem
por um saber particular e muito menos exotérico, nem comunicarão à
humanidade uma especulação sobre Deus. Muitas vezes pode suceder
que estejamos acostumados a falar sobre Deus, a ser profissionais
da Graça, os «cruzados» por causa de Deus e esquecemos que o amor
mútuo é o único aval que Deus em Jesus quer da Comunidade cristã. É
preciso que digam de nós «olhai como eles se amam», pois só
cumprindo este mandamento, Deus poderá ser «tudo em
todos».