IV Domingo da Páscoa
C
«Eu
conheço as minhas ovelhas e elas
seguem-me.»
O
evangelho deste quarto domingo do tempo pascal é verdadeiramente
breve! Um pequeno conjunto de versículos são suficientes para nos
permitir entrever uma coisa realmente grande. Remetem-nos para uma
realidade que fundamenta a nossa vida cristã.
O que é que existe entre Jesus e os seus discípulos, ontem como
hoje? Jesus apresenta-se a si próprio como o bom pastor e evoca a
relação que o une às suas ovelhas. Sobressaem imediatamente quatro
verbos que descrevem os comportamentos fundamentais de uma relação
que é única.
O que é pedido aos discípulos? Escutar e seguir.
O que é que faz Jesus? Ele conhece as suas ovelhas e dá-lhes a vida
eterna.
Cabe-lhe a Ele, naturalmente, dar o primeiro passo, a vir ao nosso
encontro. Demonstra, além disso, que para Ele não existem números.
Todos são necessários e importantes aos seus olhos. Ele
“conhece-nos” profundamente por aquilo que somos: sabe quem somos
e,apesar de tudo, oferece-nos o seu amor. Vê a nossa fragilidade e
nossa fraqueza, mas oferece-nos sempre a seu afecto e a sua
misericórdia.
O que é que nos dá? Aquilo que tem de mais precioso: a vida eterna,
a plenitude da vida que só n’Ele existe. Ao enunciar a resposta dos
discípulos aponta o essencial: escutar e seguir. Não se trata,
certamente, de uma escuta mecânica. Não se trata da escuta de quem
procura entender, a saber, a imaginar alguma coisa. Estamos imersos
numa relação: escuta-se a sua “voz”. Esta “voz” indica a pessoa,
aquilo que a pessoa comunica e propõe ao nosso coração.
Uma experiência que se adquire, naturalmente, através das
Escrituras, mas que exige sempre mais. Percorrendo os textos
sagrados podemos ser tentados unicamente pela vontade de saber, de
conhecer, a mera curiosidade intelectual, o desejo de se guarnecer
da documentação necessária, como se de um documento antigo se
tratasse. Nesse caso não é a “voz” que nos atrai, mas a página do
texto. Um texto que poderá, eventualmente, permitir a descoberta de
uma Palavra que nos orienta para uma Presença, o amor, o desejo de
falar com aquele que fala. O que acontece neste caso é muito
diferente. Pode ser esta a experiência do discípulo, mas não
basta.
Ao lado do verbo “escutar” está o verbo “seguir”, que implica um
pôr-se a caminho, percorrer os passos de alguém, arriscar a própria
vida por ele. A “escuta” implica, portanto, este comportamento. Mas
como poderemos colocar a nossa existência nas mãos de um
desconhecido? Só acontecerá se nos sentirmos conhecidos e se
conhecermos alguma coisa acerca dele. Só acontecerá se formos
capazes de entrar num mistério de amor, do qual nada nos pode
separar.
É a história de qualquer vocação cristã e de todos aqueles que se
sentem chamados a uma especial consagração.