III Domingo da Páscoa
C
«É
o Senhor!»

No
final do Evangelho de S. Mateus, o Senhor, depois de ressuscitar,
ordena a seus discípulos que voltem à Galileia: “é lá, diz ele, que
me encontrareis de novo”. Normalmente não damos atenção a este
pormenor porque nos parece indiferente que seja ali ou noutra parte
que os discípulos encontram o Senhor. Não é pois por coincidência
que o evento que hoje nos é narrado se realiza lá, no mar de
Tiberíades. Mas, na realidade, o que é a Galileia na experiência
dos discípulos?
A Galileia é o lugar em que eles nasceram, onde cresceram lado a
lado com um menino, depois um jovem maduro, que se revelou mais
tarde ser o filho de Deus. É o lugar em que eles o conheceram,
primeiro na simplicidade, vindo a eles, tão humilde nas relações
humanas, e que, no entanto, os impressionou por alguma coisa
humanamente grande. É o lugar onde, no fim de contas – não longe de
Cafarnaúm – na estrada de Filipe para Cesareia, Pedro disse: “Tu és
o filho de Deus” (Mt 16, 16).
É o único lugar da primavera da vida, o lugar das primeiras
descobertas, o lugar em que o frescor dessa novidade eles se deram
a ele e foram recebidos por uma caridade incomparável e numa
profundeza que era a própria profundidade da sabedoria de
Deus.
Em seguida vierem os anos áridos, duro, brutais, da Judeia, a luta,
as oposições, as rejeições, a morte de Cristo, o horror e o medo;
mas Cristo lhes disse: “Voltai à Galileia, voltai às fontes; ide a
Cana, ide a Cafarnaúm, ide a Cesareia de Filipe, ide a todas essas
cidades, à margem de todos esses lagos onde alimentei as multidões,
onde proclamei as bem-aventuranças, onde vos falei em segredo e
onde vistes despontar para vós a aurora de uma vida nova. Nesta
hora em que vedes o sofrimento, o medo, a aridez das coisas que
acabastes de presenciar, voltai à primavera, à fonte divina das
vossas vidas e lá me reencontrareis; não o Cristo crucificado, mas
o Cristo ressuscitado, não o Cristo no fulgor ardente da
ressurreição, mas Cristo vivo, doce, luz viva e eterna que não terá
ocaso.
Este é também o itinerário que nós devemos fazer, de ano a ano, não
somente em relação a Deus, mas também às nossas relações humanas.
Quantas amizades se formaram nos instantes dos encontros profundos
e depois se desfizeram com grande cegueira e endurecimento: “Eu
cria que tu eras outra pessoa – Verdade? Enganas-te; eu não era
outro, mas tinhas-me visto na glória e essa glória apagou-se, e tu
não soubeste viver pela fé. Quiseste uma evidência constante, mas é
às vezes a sombra e a noite”. É assim também em todas as outras
relações da nossa vida, nas relações entre pais e filhos, entre
Marido e mulher, nas relações comunitárias e eclesiais.
É preciso que saibamos voltar à Galileia, retomar o instante de paz
profunda que era um encontro e recomeçar a vivê-lo. Creio que cada
um de nós, crentes, possui em si, nalguma parte a Galileia, em
relação a Deus e em relação aos homens. Voltemos à Galileia; a
certeza que esquecemos tornar-se-á uma certeza vibrante de
realidade e de tantas possibilidades. Então a nossa fé será
verdadeiramente certeza de vida divina, certeza nascida de uma
experiência readquirida.
Neste Evangelho que acabámos de escutar, S. João chama-nos a
atenção para alguns destes aspectos:
A) Primeiro, a Ressurreição é o ponto de partida para a Comunidade
Cristã, que havia voltado ao seu trabalho, ao seu dia-a-dia. Hoje
já não os encontramos fechados em casa com medo dos Judeus, mas ao
ar livre, a pescar como antes. Mas o Senhor não renuncia em
torná-los pescadores de homens, e vai ao seu encontro numa noite
aziaga: “naquela noite não pescaram nada”. Têm que confessar a sua
pobreza: não têm nada para o almoço. Estes factos ajudam-nos a
aprofundar a nossa experiência de Jesus, vivo e próximo. Não
precisamos de o procurar longe: encontra-se na nossa vida.
Enganámo-nos se pensamos que as nossas ocupações de cada dia nos
privam de encontrar o Senhor, ou então cedemos à impressão de que
quando as coisas não correm bem, Ele não está.
B) Segundo, Jesus vive e está perto… mas é difícil reconhecê-lo.
Estamos absorvidos em muitas coisas e distraídos pelos nossos
problemas. A presença do Senhor vem sempre acompanhada de sinais da
presença do Senhor, mas custa-nos interpretá-los. Aos apóstolos
ofereceu-lhes um, a pesca milagrosa que evocava outra anterior. Mas
um só, João, que tinha feito o caminho da cruz, aquele que Jesus
amava, o reconhece. Imediatamente transmite-o a Pedro (A profecia
transmite à autoridade), isto é, transmite-o à Comunidade. Então a
capacidade de decisão, acção e entusiasmo, que são o carisma de
Pedro, entram também em acção. É importante saber ver, como o Jovem
João. E é importante escutar e actuar em consequência, como Pedro.
A partir desta colaboração os discípulos fizeram, juntos, uma nova
experiência da Ressurreição.
C) Terceiro, diz o Evangelista, a iniciativa é de Jesus. E estava
cheia de sinais de afecto: apresenta-se-lhes, multiplica a sua
festa, põe o peixe encima das brasas, convida-os a comer. Agora
eles sabem, sem necessidade de o perguntar, que é o Senhor!
A última parte gira à volta da pergunta insistente de Jesus a
Pedro. Amas-me? O Senhor está prestes a confiar-lhe o seu rebanho.
Parece, no entanto, que quer estar mais seguro da capacidade do
apóstolo. Como medi-la? Hoje as empresas e todas as instituições
pedem muitas condições aos que terão de ocupar um cargo directivo:
experiência, conhecimentos especializados, exames psico-técnicos…
Jesus só exige uma coisa: que o ame.
Nós, na Igreja, sabemos analisar com perspicácia as nossas
carências, os nossos problemas de todo o tipo, as nossas crises. E
fazemos bem. Mas segundo a linha do Senhor, conviria também que, de
vez em quando, nos perguntássemos: e se o nosso mal fosse,
definitivamente, o facto de não amarmos suficientemente.