O tríduo
Pascal

A festa anual da
Páscoa
Segundo alguns estudiosos,
a narração da paixão segundo S.
João foi fortemente influenciada pela prática litúrgica das Igrejas da Ásia Menor que celebravam a Páscoa no dia 14
de Nisan,
aniversário
da morte de Cristo.
A narração da ceia nos evangelhos sinópticos seria o testemunho da páscoa litúrgica da era apostólica nas comunidades de tradição sinóptica.
1 Cor
5,
7-8 e
a primeira epístola de Pedro,
considerada
uma homilia pascal e baptismal,
fornecem outras indicações sobre a celebração da páscoa pelos primeiros cristãos.
É preciso chegar ao século II para encontrar alguma documentação que ateste a celebração anual da páscoa,
o seu conteúdo e alguns elementos litúrgicos.
No final do século II as igrejas da Ásia Menor celebravam a páscoa e o fim do jejum no dia 14
de Nisan (daí
o nome de “quartodecimanos”),
aniversário
da morte de Cristo,
independentemente
do dia da semana.
As outras igrejas,
mais dependentes de Roma,
não interrompiam o jejum no dia 14
de Nisan,
dia da morte de Cristo,
porque celebravam a Páscoa no domingo seguinte.
Esta
diversidade
de datas no que respeita à celebração da Páscoa,
no tempo do Papa Vítor (189-199),
deu origem a uma controvérsia que ameaçou a própria igreja.
A questão não estava em saber se a expressão “celebrar
a páscoa”
indicava a celebração da morte ou a celebração da ressurreição do Senhor,
mas era a questão do dia o que mais interessava:
não sabiam se deviam escolher o dia da morte ou o dia da ressurreição.
O que estava em causa era,
fundamentalmente,
a acentuação do mistério pascal e a tentativa de abandonar definitivamente os costumes judaicos.
Nesta
controvérsia
podemos distinguir três aspectos:
um cronológico,
outro litúrgico e outro teológico.
A contenda terminou com o Concílio de Niceia (325).
Nele se afirmou que “os
irmãos orientais adoptassem a mesma prática dos romanos e dos alexandrinos e de todos os outros”.
Apesar de uma discussão acerca desta norma,
por volta de 387,
a celebração da Páscoa ao domingo perdurou até 1582,
quando o Patriarca de Constantinopla,
Jeremias II,
se recusou,
em nome da fidelidade ao Concílio de Niceia,
a adoptar o calendário gregoriano,
promulgado nesse mesmo ano,
sem o consenso da Igreja grega.
A celebração foi fixada no primeiro domingo depois da lua cheia de primavera,
situada entre o dia 22
de Março e 25
de Abril.
O Concílio Vaticano II mostrou-se
disponível para aceitar a fixação da festa da Páscoa num domingo certo do calendário gregoriano,
«se obtiver o assentimento daqueles a quem interessa,
especialmente
dos irmãos separados da comunhão com a Sé Apostólica»
(esta
disposição constituí o primeiro parágrafo do Apêndice da Sacrosanctum Concilium).
A celebração litúrgica da Páscoa desenvolveu-se
a partir da Vigília Pascal.
Nesta noite -
atesta Tertuliano para África e Hipólito para Roma -
depois das leituras,
celebrava-se
também o Baptismo e a Vigília terminava com a Eucaristia ao raiar do sol do dia seguinte.
A Vigília era precedida por um jejum,
que iniciava na Sexta-feira
Santa e só terminava à hora da Vigília.
O Tríduo Pascal de Cristo,
morto,
sepultado e ressuscitado -
como lhe chamava S.
Agostinho -
desenvolveu-se
à volta da Páscoa dominical,
celebrada no domingo sucessivo ao 14
de Nisan.
Este tríduo constava de três dias,
Sexta,
Sábado e Domingo.
Quando
no século IV se começou a interpretar os acontecimentos do Evangelho,
a instituição da Eucaristia foi colocada na quinta-feira;
esta celebração acabou por quebrar a unidade do tríduo pascal,
a antiga estrutura (Sexta,
Sábado e Domingo),
e começou com a ser constituído pela Quinta,
Sexta e Sábado.
A Sexta-feira
santa foi,
como sabemos,
esmagada pela devoção popular (ex.
A via crucis e as procissões do “enterro
do Senhor”).
A Vigília pascal desapareceu totalmente e os seus ritos foram celebrados na manhã de sábado.
O
tríduo pascal: celebração e teologia
A
liturgia do tríduo tem o seu fundamento na unidade do mistério pascal que consta inseparavelmente da morte e ressurreição de Cristo.
Cada celebração abre-se
à que se segue porque a morte supõe a ressurreição e esta supõe a primeira.
O centro de gravitação é,
no entanto,
a vigília pascal com a renovação das promessas baptismais e a celebração eucarística.
Em síntese,
devemos dizer que a tríduo é a “páscoa
celebrada em três dias”.
As Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico e do Calendário (CR,
18) esclarecem
que,
tendo Cristo realizado «a
obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus…
especialmente
através do seu mistério pascal,
com o qual,
morrendo,
destruiu a nossa morte,
e ressuscitando restaurou a vida»,
«o Sagrado tríduo da paixão e ressurreição do Senhor e o ponto culminante de todo o ano litúrgico».
Portanto,
a preeminência de que goza o domingo na semana,
goza-a
a páscoa no ano litúrgico».
«O tríduo pascal da paixão e ressurreição do Senhor inicia-se
com a Missa da Ceia do Senhor,
tem o seu centro na Vigília Pascal e termina nas Vésperas do domingo da ressurreição»
(CR,
19).
Desde
a publicação do MR 1570
até ao século XX e,
em particular,
até à recente reforma do Vaticano II não se realizaram mudanças significativas na estrutura das celebrações pascais.
A mudança mais relevante neste período foi a reforma da Vigília pascal por iniciativa de Pio XII em 1951,
acolhida depois pela reforma da Semana Santa,
o Ordo Hebdomadae Sanctae instauratus de 1956.
Este Ordo foi retomado e aperfeiçoado depois do Vaticano II,
por isso ocupamo-nos
apenas da liturgia actual,
fruto das decisões do Vaticano II que representam a melhor recuperação dos elementos da antiga tradição romana e nos conduzem a uma visão unitária destas celebrações.
Os actuais livros litúrgicos usam a expressão moderna Sacrum Triduum Paschale para indicar o período que tem início na missa vespertina in cena Domini de Quinta-feira
santa,
com o centro na Vigília pascal,
e termina com as Vésperas no domingo da ressurreição (Cf.
CR 19;
MR 1970).
Como dizem as Normas Gerais,
no número 18:
“O tríduo da paixão e ressurreição do Senhor é o centro e vértice do Ano litúrgico”.
O tríduo pascal comemora o mistério da morte e ressurreição de Cristo.
Deste
modo,
foi recuperado o antigo tríduo de Cristo,
morto,
sepultado e ressuscitado.
A perspectiva celebrativa da páscoa anual e histórica,
que determinou a celebração em três dias,
segundo a tradição cronológica neo-testamentária,
presente no antigo Kerygma de 1Cor
15,
3-4: «Eu
recebi do Senhor o que também vos transmiti:
Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as escrituras,
foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia segundo as escrituras...»,
porque o “hoje”
da celebração é sempre memorial de um acontecimento.
De facto,
a celebração vespertina de Quinta-feira
Santa faz parte -
como “prólogo”
sacramental
- dos
três dias do tríduo,
que compreende os três dias seguintes (Sexta-feira,
Sábado e Domingo).
É,
fundamentalmente,
o que nos diz a primeira oração inicial (o
missal propõe duas)
de Sexta-feira
Santa:
«Jesus
Cristo vosso Filho instituiu (inaugurou)
o mistério pascal».
Podemos dizer que enquanto o tríduo nos apresenta a realidade do mistério pascal na sua dimensão histórica,
a celebração de Quinta-feira
santa transmite-o
na sua dimensão ritual;
é o momento “sacramental”
do único mistério pascal.
Deste modo,
a Quinta-feira
Santa está ligada ao tríduo,
ainda que historicamente não faça parte dele.
Quinta-Feira
Santa: missa “in cena Domini”
Esta
celebração tem um carácter festivo,
unitário e comunitário.
Nela celebramos a instituição da Eucaristia,
inseparável,
para o o seu entendimento,
da cruz e da ressurreição.
Na última ceia Jesus antecipa no rito eucarístico a sua oblação numa perspectiva de vitória.
Os momentos fundamentais da celebração vespertina de Quinta-feira
santa são:
a liturgia da palavra (Ex
12,
1-8.11-14; 1 Cor
11,
23-26: Jo
13,
1-15); o
lava-pés,
opcional;
a liturgia eucarística;
a transladação do Santíssimo Sacramento;
e a desnudação do altar (feita
em silêncio depois da celebração).
No que respeita à reforma de 1956,
a novidade mais importante é a proclamação de Ex 12
na primeira leitura,
na qual se encontram as prescrições da ceia pascal hebraica,
e o salmo responsorial (Sl
115)
com o refrão:
«O cálice de bênção é comunhão do sangue de Cristo».
Dada
a multiplicidade de elementos que confluem nesta celebração,
torna-se
necessário fazer uma leitura unitária.
Uma rubrica do Missal prescreve que na homilia «comentam-se
os grandes mistérios que neste dia se comemoram:
a instituição da Eucaristia,
o sacramento da Ordem e o mandato do Senhor sobre a caridade».
Significa isto que o sacerdócio ministerial e a caridade são componentes irrenunciáveis de cada celebração eucarística.
No que concerne à instituição da eucaristia,
esta deve ser lida à luz da antiga tradição romana:
a entrega (traditio)
que o Senhor fez aos seus discípulos dos mistérios cultuais do seu corpo e do seu sangue para que o celebrassem.
A celebração vespertina de Quinta-feira
Santa é,
portanto,
memorial daquele momento em que Jesus,
antes de se entregar à morte,
confiou para sempre à sua Igreja o novo e eterno sacrifício,
convite nupcial do seu amor,
para que esta o perpetuasse em sua memória.
Sexta-Feira
Santa: celebração da paixão
A celebração de Sexta-Feira
da Paixão do Senhor divide-se
em três partes:
liturgia da palavra (Is
52,
13-53, 12; Heb
4,
14-16; 5, 7-9; Jo 18,
1-19, 42); a
adoração da Santa Cruz;
comunhão eucarística.
A reforma de 1956
tinha re-introduzido
a comunhão dos fiéis,
que ainda se mantém e que é causa de alguns problemas teológico-pastorais.
Alguns interpretam esta estrutura,
fruto de uma síntese de diversas tradições,
de uma forma linear:
“paixão
proclamada (liturgia
da palavra);
paixão invocada (oração
universal);
paixão venerada (adoração
da cruz);
paixão comungada (comunhão
eucarística).
O problema não está,
no entanto,
na estrutura da própria celebração mas na harmonia desta celebração no conjunto do tríduo pascal,
que se orienta para a celebração eucarística da Vigília pascal.
Tendo ainda em conta o jejum prescrito pelas Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico e do Calendário (28)
para este dia,
a problemática da comunhão de Sexta-Feira
Santa é ainda mais evidente.
O problema não é histórico e muito menos arqueológico,
mas teológico:
em primeiro lugar,
recordemos que para além da presença eucarística,
existem outras expressões da presença de Cristo (cf.
SC 7);
em segundo lugar,
convém ter presente que a cruz gloriosa constitui o simbolismo central de Sexta-Feira
Santa.
É de tal maneira notório este simbolismo que até as duas orações (uma
“depois
da comunhão”
e outra “sobre
o povo”)
que encerram esta celebração fazem especial menção à «gloriosa
morte e ressurreição de Cristo»
(depois
da comunhão)
e à «morte
do vosso filho na esperança da ressurreição»
(oração
sobre o povo).
Em relação à reforma de 1956,
a novidade encontra-se
nas primeiras duas leituras.
A primeira (a
passagem do servo de IHWH de Isaías)
é para ser compreendida à luz de Cristo sofredor.
Conserva-se
a proclamação da Paixão segundo S.
João,
para o qual a morte de Jesus não é uma derrota mas uma vitória;
é uma “elevação”
no duplo sentido da palavra:
sobre a cruz e para a glória.
A aclamação antes do Evangelho (Fil
2,
8-9) coloca-se
na óptica de João quando anuncia a exaltação de Cristo obediente até à morte…
Para além disso,
numerosas variantes nos textos eucológicos configuram a celebração como memorial do sacrifício “pascal”
de Cristo.
A paixão/morte
de Cristo deve ser entendida à luz do seu aspecto soteriológico,
que culmina com o convite sugerido na segunda leitura:
«vamos,
portanto,
cheios de confiança,
ao trono da graça,
a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno»
(Heb
4, 16).
Foram re-elaboradas
as grandes intercessões,
nas quais se evidenciam as orações V e VI,
a primeira pela unidade dos cristãos e a segunda pelos judeus.
No que concerne aos impropérios (o
Missal italiano traduziu por “lamentações
do Senhor”
- lamenti
del Signore)
são exactamente o que a palavra indica,
os impropérios que o Senhor levantado na Cruz dirige ao seu povo.
Neles se percorrem as primeiras etapas da História de Israel nas quais Deus se manifesta como salvador;
apesar destes acontecimentos se terem realizado em favor do povo este não o soube reconhecer,
matando aquele que sempre o beneficiou.
Na Idade Média os impropérios foram interpretados numa perspectiva anti-judaica.
Devem,
no entanto,
ser entendidos como expressão da recusa da comunidade,
judaica e cristã,
diante de Deus que oferece continuamente a salvação.
A liturgia das horas,
com os seus elementos característicos (salmos
e leituras),
apresenta-nos
uma ampla releitura do mistério da cruz.
As antífonas que acompanham a oração dos salmos da hora intermédia (Tercia,
sexta e Noa)
e as antífonas de Vésperas de Sexta-Feira
Santa percorrem passo a passo os diversos momentos históricos do drama da cruz,
até à última antífona de Vésperas que recorda o momento culminante do drama:
«tendo
tomado o vinagre,
Jesus disse:
tudo está consumado.
E inclinando a cabeça,
expirou».
A passagem patrística do Ofício de leituras,
das Catequeses de S.
João Crisóstomo,
ilustra a força do sangue de Cristo e,
em particular,
explica o simbolismo da água e do sangue que saíram do lado de Cristo:
o primeiro (a
água)
símbolo do Baptismo;
o segundo (o
sangue)
símbolo da Eucaristia.
Portanto,
conclui o santo bispo,
«foi
do lado de Cristo que se formou a Igreja,
como foi do lado de Adão que Eva foi formada».
O Sábado Santo: o
sepulcro de Cristo e a descida aos
infernos
Com a reforma de Pio XII,
retomada fundamentalmente pelo Vaticano II,
o Sábado Santo adquiriu o seu aspecto originário:
é o dia de Cristo sepultado.
Não é um dia “aliturgico”
como normalmente é chamado,
porque a liturgia é sempre mais que a celebração da Eucaristia.
Seria “alitúrgico”
se não se celebrasse a liturgia das horas,
que aliás nos transmite o significado deste dia.
A Igreja recomenda o jejum e a “veneração”
do sepulcro na expectativa da ressurreição do Senhor,
porque como diz a segunda antífona do Ofício de leituras,
«o meu corpo descansará na esperança».
Tal
como os dias anteriores,
o sábado santo propõe a totalidade do mistério pascal.
A interpretação que dele faz a Igreja está presente nos três salmos do Ofício de leituras que iluminam o mistério da Páscoa nos três momentos de morte,
sepultura e ressurreição.
O Sl.
Nr.
4 celebra
Cristo morto que repousa tranquilo em Deus:
«em paz me deito e adormeço tranquilo,
porque só vós,
Senhor,
me fazeis repousar em segurança»
(v.
9). O
Sl.
15 celebra
a espera confiante da ressurreição de Cristo sepultado:
«Vós
não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção»
(v.
10). Finalmente,
o Sl 23
celebra a plena glorificação de Cristo que ultrapassa as portas do céu para ser entronizado à direita do Pai:
«levantai,
ó portas,
os vossos umbrais,
alteai-vos,
pórticos antigos,
e entrará o rei da glória»
(v.
9). Assim
também os dois salmos e o cântico de laudes (Sl
63,
Is 38,
Sl 150),
iluminados pelas antífonas correspondentes,
dirigem a nossa atenção para os três momentos:
de morte («…O
Senhor morreu inocente),
de repouso na esperança («livrai-me,
Senhor,
das portas do abismo)
e de glorificação («Eu
estive morto,
mas agora vivo para sempre,
e tenho as chaves da morte e do abismo»).
Os salmos das outras horas do Ofício e os outros elementos,
como as leituras bíblicas,
as invocações e as intercessões,
sublinham ora um,
ora outro momento do mistério pascal.
O tema específico do sábado Santo,
para além do repouso de Cristo no sepulcro,
é a sua “descida
aos infernos”.
Deste tema fala-nos
longamente a belíssima homilia de um anónimo do IV século que é lida no Ofício de leituras.
O tema reaparece na oração do dia e nas invocações de laudes e mais tarde vamos encontrá-lo
durante o tempo pascal.
Trata-se
de um artigo de fé que a liturgia proclama no pouco usado símbolo dos Apóstolos e na IV Oração Eucarística,
estranho à sensibilidade moderna e à consciência dos crentes,
mas fundamental para o entendimento do sentido cristológico e soteriológico da Páscoa.
A homilia de Sábado Santo (leitura
patrística do Ofício de leitura)
afirma a este respeito:
«Deus
adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam à séculos»
e ilustra com imagens sugestivas o encontro de Cristo com Adão e os outros justos que jazem «nas
trevas e na sombra da morte»,
aos quais o Redentor anuncia a salvação e conduz à eterna morada do reino dos céus:
«e Cristo tomando Adão pela mão,
levantou-o
dizendo:
desperta tu que dormes;
levanta-te
de entre os mortos,
e Cristo te iluminará».
A mesma doutrina encontra-se
nas preces de laudes quando,
na quarta petição,
diremos:
«Cristo,
novo Adão,
que descestes ao reino dos mortos para libertar os justos que,
desde a origem do mundo,
estavam encarcerados».
A descida de Cristo aos infernos tem,
por conseguinte,
uma dimensão eclesial -
sacramental.
É o que nos diz a oração daquele dia,
a qual depois de ter recordado que o Filho de Deus («depois
de ter descido à morada dos mortos»)
apresenta a seguinte súplica:
«concedei
aos vossos fiéis que,
sepultados com Cristo no Baptismo,
também com Cristo ressuscitem para a vida eterna».
No Sacramento do Baptismo,
o homem entra neste itinerário de solidariedade “dentro”
e “para
além”
da morte de Cristo,
pelo qual se torna membro da comunidade dos redimidos,
como ilustra S.
Paulo em Rm 6,
4-5, texto
que inspira a última invocação de laudes:
«Cristo,
Filho de Deus vivo,
que pelo Baptismo nos sepultastes convosco na morte,
conformai-nos
cada vez mais à imagem da vossa ressurreição para vivermos uma vida nova.
A Ressurreição do
Senhor: Vigília Pascal
Nesta
noite «a
Igreja espera a ressurreição de Cristo e celebra-a
nos Sacramentos»
(CR,
21). É
a mãe de todas as vigílias,
como lhe chamava S.
Agostinho.
No MR 1970
a vigília pascal está em relação com o domingo de páscoa:
“Domingo
de Páscoa in resurrectione
Domini”
A primeira celebração do domingo de páscoa é,
portanto,
a vigília pascal.
O simbolismo fundamental desta vigília é a de ser uma “noite
iluminada”,
ou melhor,
“uma
noite vencida pelo dia”,
demonstrando
através de símbolos,
sinais e ritos que a vida da graça nasce da morte de Cristo.
Por isso a Vigília é,
por natureza,
nocturna.
A espera,
típica da vigilância,
está em relação com a segunda vinda de Cristo,
afirma-o
uma rubrica que se encontra no missal,
antes do formulário da celebração:
«segundo
uma antiquíssima tradição,
esta é uma noite de vigília em nome do Senhor,
noite em que os fiéis celebram segundo a recomendação do Evangelho,
de lâmpadas acesas na mão (Lc
12,
35), à
semelhança dos servos que esperam o Senhor,
para que quando Ele vier,
os encontre vigilantes e os faça sentar à sua mesa».
A estrutura da celebração desta vigília introduz os participantes na contemplação da Páscoa em todas as suas dimensões:
a liturgia da luz ou “lucernário”
(bênção
do fogo novo,
preparação e procissão do círio e o canto do exultet ou “precónio
pascal”)
celebra a Páscoa cósmica,
que assinala a passagem das trevas para a luz;
a liturgia da palavra (com
sete leituras (ou
quatro obrigatórias)
do Antigo Testamento mais duas do novo)
celebra a Páscoa histórica evocando os principais momentos da história da salvação;
a liturgia baptismal celebra a Páscoa da Igreja,
povo renascido da fonte baptismal;
a liturgia eucarística celebra a Páscoa perene e escatológica com a participação no banquete eucarístico,
imagem da vida nova e do reino prometido.
A liturgia da palavra sofreu mudanças consideráveis ao longo dos séculos.
As leituras constituíam a preparação última dos catecúmenos,
antes de receber o Baptismo.
Os textos proclamados convidam-nos
a percorrer todas (ou
pelo menos as mais importantes)
etapas da salvação que apontam para o momento único da Páscoa do Senhor.
Esta Páscoa do Senhor é,
pois,
a Páscoa da Igreja,
como proclama Rm 6,
3-11 (a
primeira leitura do NT):
«fomos
sepultados com Cristo no Baptismo na sua morte,
para que,
assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai,
também nós vivamos uma vida nova».
A Páscoa é,
portanto,
um convite a viver e a renovar todos os dias o acontecimento salvífico que se realizou em nós no dia do nosso Baptismo.
O Domingo de Páscoa celebra o acontecimento pascal como o «dia
de Cristo Senhor».
As leituras bíblicas contêm o kerygma pascal e apelam para as condições da vida nova em Cristo ressuscitado.
Como diz a actual colecta para este dia (proveniente
do sacramentário GeV),
celebrar a Páscoa significa «ser
renovados pelo Vosso Espírito [para
que]
ressuscitemos
para a luz da vida»,
isto é,
a luz de Cristo ressuscitado.
A páscoa é,
portanto,
a celebração de um acontecimento central da vida de Cristo,
realizado de uma vez por todas,
pelo qual,
através das diversas celebrações do tríduo pascal,
alcançamos a salvação,
a passagem da morte à vida no presente da vivência eclesial.