Domingo V da Quaresma
C
'A
mulher adúltera'

Por maior que
seja a nossa fantasia em relação a Deus, nunca imaginaremos até
onde poderá chegar a sua misericórdia. Deus é fantasia infinita de
salvação e quando o homem se encontra numa situação da qual pensa
que não haverá resolução, o Senhor anuncia: «vou realizar uma coisa
nova» (Is 43, 16-21). Isaías é o profeta do impossível porque a sua
fé em Deus é absoluta. Até sobre as próprias intervenções
realizadas no deserto, durante o Êxodo, diz o Senhor: «Não vos
lembreis mais sobre os acontecimentos passados». Deus está sempre
para além da nossa capacidade de o encapuçar. Não tem limites a sua
misericórdia salvífica e está para além daquilo que o homem pode
pensar. O Evangelho era e é necessário para que o homem possa
entender que a sua misericórdia não se reduz a nenhum “se” nem
nenhum “mas”. O episódio da mulher adúltera (Evangelho) é disso
mesmo um exemplo claro. Comprova-se o seu adultério e nem sequer
pede perdão e disse então Jesus: «Nem eu te condeno. Vai e não
tornes a pecar». A Igreja, consciente de tal grandeza, pede a ajuda
de Deus para «viver com alegria o mesmo espírito de caridade, que
levou o Filho a entregar-se à morte» (Oração colecta). Esta ajuda
de Deus é por vezes acolhida, outras vezes…
O Episódio da mulher adúltera é um dos mais fascinantes da história
da transmissão do texto do Novo Testamento. Não há registo deste
texto em qualquer manuscrito até ao século V. Quando começa a
aparecer, a sua tradição é incerta. Por vezes aparece no Evangelho
de João, outras no Evangelho de Lucas. Sucessivamente fixar-se-á no
Evangelho de S. João. Literariamente, o texto possui algumas
características dos Evangelhos sinópticos, com algumas nuances
características do Evangelho de João: O plano histórico (a falta de
particulares: onde está o adúltero, já que a mulher foi
«surpreendida em flagrante adultério»), o plano teológico (a
misericórdia de Jesus para além de qualquer limite), o plano
simbólico (aquela mulher representa a Igreja).
O episódio histórico apresenta o encontro das autoridades judaicas
com Jesus. Trata-se de mais um episódio, à semelhança de tantos
outros, em que as autoridades religiosas queriam pôr em causa a
autoridade com que Jesus costumava ensinar (o problema do repúdio;
os impostos, etc.). Os escribas e fariseus queriam armar uma cilada
a Jesus para o poderem acusar. No caso da mulher adúltera
queriam-se servir da sua misericórdia porque - segundo a
mentalidade judaica - não respeitava as leis da Torah, não
respeitava o critério de justiça (punição daquele que erra), nem
era para levar a sério (porque não era “educativa”. Trata-se de uma
mentalidade simultaneamente antiga e moderna que se encontra a
certos cristãos e homens que se dizem de Igreja.
O plano teológico é representado pela missão de Jesus. Ele veio
para revelar o Pai que ama de tal modo mundo pecador a ponto de
entregar o seu Filho para que o mundo se salve (cf. Jo 3). A
misericórdia do Pai é tão grande que quando o nosso coração nos
condena, o Pai, por meio de seu Filho, nos justifica e nos salva
(cf. 1Jo 3, 19-20). Não nos devemos esquecer que a justiça de Deus
é “injusta” porque faz nascer o sol sobre bons e maus. A sua
misericórdia pode ir além do nosso arrependimento? A resposta não é
fácil porque só Deus conhece os mistérios do coração da pessoa. O
texto bíblico, porém, não evidencia elementos de arrependimento
(como nós o entendemos) na mulher adúltera.
O plano simbólico da narração pode-se resumir a dois momentos. A
mulher não tem amante, ainda que tenha sido «surpreendida em
flagrante adultério», e foi condenada à lapidação (uma pena
aplicada aos blasfemos e apóstatas; a pena rabínica para o
adultério era o estrangulamento), que só os romanos poderiam
autorizar. Estes elementos conduzem o leitor/ouvinte para a
compreensão da mulher como símbolo da Igreja. O seu esposo é
Cristo, o seu amante é o pecado com o qual atraiçoa o seu esposo. O
seu esposo, como o profeta Oseias, apesar de poder condenar à morte
a sua própria esposa adúltera, continua a amá-la e espera que se
converta. Porque a ama e espera por ela, só a pode ter perdoado
(cf. Os 1-3).