Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

Domingo V da Quaresma C
'A mulher adúltera'

b.184.184.16777215.0.stories.priore.evangelodelladomenica.peccatrice_perdonata



Por maior que seja a nossa fantasia em relação a Deus, nunca imaginaremos até onde poderá chegar a sua misericórdia. Deus é fantasia infinita de salvação e quando o homem se encontra numa situação da qual pensa que não haverá resolução, o Senhor anuncia: «vou realizar uma coisa nova» (Is 43, 16-21). Isaías é o profeta do impossível porque a sua fé em Deus é absoluta. Até sobre as próprias intervenções realizadas no deserto, durante o Êxodo, diz o Senhor: «Não vos lembreis mais sobre os acontecimentos passados». Deus está sempre para além da nossa capacidade de o encapuçar. Não tem limites a sua misericórdia salvífica e está para além daquilo que o homem pode pensar. O Evangelho era e é necessário para que o homem possa entender que a sua misericórdia não se reduz a nenhum “se” nem nenhum “mas”. O episódio da mulher adúltera (Evangelho) é disso mesmo um exemplo claro. Comprova-se o seu adultério e nem sequer pede perdão e disse então Jesus: «Nem eu te condeno. Vai e não tornes a pecar». A Igreja, consciente de tal grandeza, pede a ajuda de Deus para «viver com alegria o mesmo espírito de caridade, que levou o Filho a entregar-se à morte» (Oração colecta). Esta ajuda de Deus é por vezes acolhida, outras vezes…

O Episódio da mulher adúltera é um dos mais fascinantes da história da transmissão do texto do Novo Testamento. Não há registo deste texto em qualquer manuscrito até ao século V. Quando começa a aparecer, a sua tradição é incerta. Por vezes aparece no Evangelho de João, outras no Evangelho de Lucas. Sucessivamente fixar-se-á no Evangelho de S. João. Literariamente, o texto possui algumas características dos Evangelhos sinópticos, com algumas nuances características do Evangelho de João: O plano histórico (a falta de particulares: onde está o adúltero, já que a mulher foi «surpreendida em flagrante adultério»), o plano teológico (a misericórdia de Jesus para além de qualquer limite), o plano simbólico (aquela mulher representa a Igreja).

O episódio histórico apresenta o encontro das autoridades judaicas com Jesus. Trata-se de mais um episódio, à semelhança de tantos outros, em que as autoridades religiosas queriam pôr em causa a autoridade com que Jesus costumava ensinar (o problema do repúdio; os impostos, etc.). Os escribas e fariseus queriam armar uma cilada a Jesus para o poderem acusar. No caso da mulher adúltera queriam-se servir da sua misericórdia porque - segundo a mentalidade judaica - não respeitava as leis da Torah, não respeitava o critério de justiça (punição daquele que erra), nem era para levar a sério (porque não era “educativa”. Trata-se de uma mentalidade simultaneamente antiga e moderna que se encontra a certos cristãos e homens que se dizem de Igreja.

O plano teológico é representado pela missão de Jesus. Ele veio para revelar o Pai que ama de tal modo mundo pecador a ponto de entregar o seu Filho para que o mundo se salve (cf. Jo 3). A misericórdia do Pai é tão grande que quando o nosso coração nos condena, o Pai, por meio de seu Filho, nos justifica e nos salva (cf. 1Jo 3, 19-20). Não nos devemos esquecer que a justiça de Deus é “injusta” porque faz nascer o sol sobre bons e maus. A sua misericórdia pode ir além do nosso arrependimento? A resposta não é fácil porque só Deus conhece os mistérios do coração da pessoa. O texto bíblico, porém, não evidencia elementos de arrependimento (como nós o entendemos) na mulher adúltera.

O plano simbólico da narração pode-se resumir a dois momentos. A mulher não tem amante, ainda que tenha sido «surpreendida em flagrante adultério», e foi condenada à lapidação (uma pena aplicada aos blasfemos e apóstatas; a pena rabínica para o adultério era o estrangulamento), que só os romanos poderiam autorizar. Estes elementos conduzem o leitor/ouvinte para a compreensão da mulher como símbolo da Igreja. O seu esposo é Cristo, o seu amante é o pecado com o qual atraiçoa o seu esposo. O seu esposo, como o profeta Oseias, apesar de poder condenar à morte a sua própria esposa adúltera, continua a amá-la e espera que se converta. Porque a ama e espera por ela, só a pode ter perdoado (cf. Os 1-3).