Domingo IV da Quaresma
C
'O
regresso do filho pródigo'

A
nossa vida é feita de avanços e recuos, de despedidas e
reencontros, de abandonos e regressos. Alguns mais significativos
do que outros, mas é certo que ninguém fica insensível a certos
reencontros ou regressos: é frequente vermos pessoas que recuam nas
suas decisões, mudando de ideias ou posição; quando se reencontra
uma amigo passado muito tempo; quando assistimos ao regresso de uma
pessoa amada, de um familiar imigrante ou recuperamos alguma coisa
de que necessitamos muito e procuramos desesperadamente. Digo isto,
porque quero que todos vejamos o tema do regresso e reencontro no
Evangelho deste domingo.
Estamos perante um dos relatos mais magníficos de Jesus. Se não é o
melhor, é pelo menos um dos melhores. A “parábola do filho
pródigo”, como habitualmente lhe chamamos, poderia ser, certamente,
a “parábola dos regressos”. De facto, vemos o regresso de um filho
transtornado porque abandonou a sua casa, mas este
regresso a
casa, vem
acompanhado de outros regressos. Também existe outro filho que
regressa do campo, regressa de cumprir as suas obrigações. E,
sobretudo, também assistimos o regresso de um pai que, depois de
olhar muitos dias para o horizonte à espera do seu filho mais novo,
aquele dia pôde regressar com ele a casa.
Na verdade, esta parábola, que se encontra exclusivamente no
Evangelho de S. Lucas, está acompanhada de outras duas parábolas –
que hoje não escutamos, mas que são por nós conhecidas – e que
também explicam outros dois regressos: o regresso da ovelha
perdida, que o pastor recupera e leva para junto das noventa e
nove; e o “regresso” de uma dracma, uma moeda de prata, que a
mulher consegue encontrar. Nestas duas parábolas anteriores as
personagens em questão são o pastor, que sai em busca da sua ovelha
perdida; ou a mulher que barre a casa à procura da sua moeda. Em
todas elas se acaba com uma festa, um banquete. A festa do
reencontro, o banquete do regresso.
São Lucas, no seu evangelho, vai-nos preparando, gradualmente, com
a ovelha e a moeda de prata, mas finalmente surpreende-nos com a
perda de algo que é muito mais importante: um filho, e a personagem
principal desta parábola, à semelhança do pastor e da mulher, agora
é o seu Pai. Mas este pai tem uma atitude diferente. Não faz como o
Pastor, que deixa as 99 para procurar a que anda perdida. Nem como
a mulher que acende a lâmpada e barre a casa. Este Pai não parte à
procura do filho, permanece em casa, espera e confia na atitude do
filho. Isso é o que sublinha Jesus nesta parábola: o pai que espera
porque crê no filho, mais do que o filho no Pai!
Pensemos que o perdão só é possível porque o Pai da parábola não se
resigna a perder definitivamente o seu filho, como o Pastor que
tinha 100 ovelhas e perdeu uma, ou a mulher que tinha 10 moedas e
também perdeu uma. Todas são pessoas de esperança e nenhuma delas
se resigna à perda. Facilmente imaginamos o Pai, cada manhã e cada
tarde, olhando o horizonte à espera do seu filho. A diferença das
outras personagens da parábola, trata-se de um Pai que respeita a
decisão do seu filho, não o vai procurar, mas espera-o, porque o
ama. É a atitude de Deus para connosco: respeita-nos profundamente
na nossa liberdade e nas nossas decisões. Deixa que vagueemos pelos
caminhos, ainda que tortuosos, sem nos pedir contas, mas, porque se
trata do melhor Pai do mundo, misericordioso e compassivo,
espera-nos todos os dias.
E porque é que o espera? Porque só se sente Pai com o filho,
falta-lhe a presença do filho mais novo para se sentir
verdadeiramente Pai. Esta ideia ajuda-nos a compreender até que
ponto somos necessários ao nosso Pai, Deus, e até que ponto o
fazemos feliz quando voltamos para ele. A sua ansiedade para que
regressemos a ele revela o seu grande amor por nós.
Mas, segundo a parábola, o que leva o filho perdido a regressar a
casa é a necessidade e a possibilidade de trabalhar para o pai, e
não a sua condição de filho. Por isso, o texto destaca a vontade de
o aceitar não como trabalhador mas por aquilo que é: um filho.
Reveste-o como filho e dando-lhe as sandálias, sinal do homem livre
porque os escravos andavam descalços, e o anel, o sinete, porque
recupera de novo a sua autoridade sobre os servos e o poder sobre
os bens do Pai. Esta atitude do Pai contrasta absolutamente com a
atitude do filho mais velho que regressa do campo. Este não
esperava ninguém, nem ao próprio irmão. Além disso, refere-se a ele
tratando-o como se não fosse seu irmão: esse teu
filho. Em princípio,
o mais velho seria o filho modelo, mas não tem atitudes nem de
filho nem de irmão. Podíamos até perguntar porque é que o filho
mais novo abandona a casa paterna? Se o relacionamos com a situação
real que provoca a parábola de Jesus: a oposição entre fariseus e
publicanos, ocorre-me a ideia de pensar que o mais novo se foi
embora porque o mais velho lhe fazia a “vida impossível”. Se o mais
velho representa os fariseus e o mais novo os publicanos, sabemos
que estes eram desprezados pelos fariseus e por isso se afastaram
do seu perfeccionismo legal. Tal atitude conviada-nos a pensar e a
reflectir sobre as nossas atitudes: quantas vezes a nossa
prepotência religiosa afasta da Igreja muitos irmãos,
escandalizados ou que se sentem indignos de pertencer a ela, por
culpa do nosso perfeccionismo hipócrita.
A parábola não tem um fim feliz, ficamos sem saber se o mais velho
participou ou não da festa. Mas o que interessa é que, como se
trata de uma parábola de conversão, o importante é fixarmo-nos na
figura do Pai misericordioso que faz uma festa pelo regresso do seu
filho que tinha pecado. Cada um de nós é um “filho pródigo” pelas
vezes que nos afastamos do nosso Deus, no entanto, apesar do nosso
pecado, nunca podemos perder a esperança de salvação e de perceber
que, aos olhos de Deus, nunca perdemos a nossa dignidade de filhos.
A festa é o sinal da convivialidade de Deus com os homens, de que é
exemplo a Eucaristia, na qual Deus se nos revela como Pai que vem
ao nosso encontro para se instalar no nosso meio.