Domingo II da Quaresma
C
Transfiguração
do Senhor

O
sonho de todos os nómadas do deserto é o de possuir uma terra.
Nessa terra a água não terá necessariamente de ser extraída dos
poços, mas cairá dos céus; uma terra onde as chuvas regulares e
abundantes permitam cultivar campos de grão, vinhas e árvores de
fruto; uma terra para se estabelecer, juntamente com a própria
família, e viver em paz.
Abraão é um desses nómadas: partiu de um país longínquo,
deslocou-se, durante anos, como viajante sem destino. Está velho e
sem filhos. A sua vida parece encaminhada para uma conclusão
fracassada. Um dia o Senhor promete-lhe o que sempre
desejou: uma terra e
uma descendência.
Porque motivo Deus escolheu Abraão e não outro? Os rabinos –
convencidos como estavam de que o Senhor só concede favores a quem
os merece – afirmavam que Abraão tinha atraído as bênçãos de Deus
porque tinha praticado a misericórdia e a justiça. Não acreditam no
dom gratuito de Deus! Ele «acreditou no Senhor, o que lhe foi
atribuído como justiça». É a primeira vez na bíblia que se diz que
um homem teve fé em Deus!
O verbo que nós traduzimos por “acreditar”, em hebraico significa
“apoiar-se a um fundamento sólido”, “estável”, “seguro”. Não indica
uma adesão intelectual a alguns dogmas, mas uma confiança
incondicional concedida a uma pessoa. Uma imagem expressiva pode
ser a da esposa: quando ela afirma que «acredita no seu marido»
quer dizer que confia inteiramente nele, que põe nele toda a sua
esperança, que lhe confia o seu futuro e a própria vida.
A primeira leitura descreve a resposta do senhor a esta fé: depois
de ter feito a sua promessa, Deus propõe um
rito para
sancionar.
Nos povos antigos da mesopotâmia os pactos solenes eram estipulados
com uma cerimónia: pegava-se num animal e esquartejava-se; depois
disso, aqueles que se empenhavam no juramento de fidelidade
passavam pelo meio das carnes pronunciando esta fórmula: «se eu
trair o pacto, que eu seja cortado em bocados como este
animal!».
Na segunda parte da leitura, Deus confirma as suas palavras
realizando este rito de aliança. Tudo acontece numa misteriosa
visão. Após ter feito a sua promessa, o Senhor manda que Abraão
mate os animais. Ele assim o fez, dispondo metade em frente da
outra metade; depois um brazido fumegante e um archote de fogo
passaram entre os animais cortados.
Note-se bem: somente Deus
faz o gesto da aliança, Abraão não
passa por entre as carnes dos animais. A promessa
de Deus é absolutamente incondicional. Sabe que nada
pode pedir porque os filhos do patriarca serão muitas vezes
incrédulos e infiéis. Durante o êxodo, chegarão até a pensar que o
Senhor os tenha levado ao deserto para os fazer perecer (Nm 14,
1-9).
O Evangelho apresenta-nos a Transfiguração de Cristo no monte
Tabor, segundo a versão de Lucas. Este trecho é normalmente
interpretado como uma breve antecipação da experiência do paraíso,
concedida por Jesus a um grupo restrito de amigos para os preparar
a suportar a dura prova da sua paixão e morte.
É sempre preciso ser muito circunspecto ao abeirar-se de um texto
evangélico porque aquilo que, à primeira vista, pode parecer a
crónica de um facto, perante um exame mais atento, pode revelar-se
um texto denso de teologia, redigido segundo os cânones da
linguagem bíblica. O relato da transfiguração de Jesus, que é
referido de modo quase idêntico por Marcos, Mateus e Lucas, é um
exemplo disso. Debruçamo-nos principalmente sobre alguns pormenores
significativos que se encontram apenas na versão de Lucas:
- Só Lucas refere a razão da subida de Jesus ao Monte: vai
lá para
orar. Ao meio do
Evangelho, Lucas menciona os primeiros sinais de insucesso: as
multidões, antes entusiasmadas, abandonam Jesus, alguém toma-o por
exaltado e um subversivo, os seus inimigos conspiram para o matar.
É compreensível que Jesus então se interrogue acerca do caminho que
o Pai quer que ele percorra. Por isso «subiu ao monte para
orar».
- Durante a oração, o rosto de Jesus mudou de
aspecto; ao contrário
dos outros evangelistas, Lucas não fala de transfiguração, mas de
«alteração de aspecto». Este esplendor é o sinal da glória que
envolve quem está unido a Deus. O próprio rosto de Moisés brilhava
quando ele entrava em diálogo com o Senhor (Ex 34, 29-35).
- Apareceram duas
personagens: Moisés e
Elias. Eles são o símbolo da Lei e dos profetas, representam todo o
antigo Testamento. Todos os livros sagrados de Israel têm como
finalidade o diálogo com Jesus. Sem Ele, todo o Antigo Testamento é
incompreensível, mas também Jesus, sem o Antigo Testamento,
permanece um mistério. No dia de Páscoa, para dar a entender o
significado da sua morte e ressurreição, fará referência ao Antigo
Testamento. Também Marcos e Mateus introduzem Moisés e Elias, mas
só Lucas refere o diálogo com Jesus: falavam da
sua morte.
- Os três discípulos, Pedro Tiago e João não entendem nada do que
está a acontecer. São vencidos pelo sono. Alguns dizem que
adormeceram pelo cansaço da subida. Notamos um pormenor: nos
momentos em que temos alguma referência à paixão e morte de Jesus,
estes três discípulos estão sempre vencidos pelo sono. Também no
jardim das Oliveiras eles adormecem (Mc 14, 32-42; Lc 22, 45). É
estranho que nos momentos cruciais eles tenham sempre os olhos
pesados! No nosso relato, o sono, indica a incapacidade
dos discípulos entenderem e aceitarem que
o Messias de Deus tenha que passar pela morte para entrar na
glória. Sonham com os aplausos e triunfos e o sofrimento dá-lhes
sono.
- As três tendas indicam talvez o desejo de Pedro de parar para
perpetuar a alegria experimentada num momento de intensa oração com
o Mestre.
- A
nuvem – segundo a
linguagem bíblica – indica a presença invisível de Deus. Pedro,
Tiago e João são introduzidos no mundo de Deus e ali têm a
iluminação que os leva a entender o caminho do mestre: o conflito
com o poder religioso, a perseguição, a paixão e a morte. Dão-se
conta de que esse será também o seu destino e têm medo.
- Desta nuvem sai uma voz: é a interpretação de Deus sobre tudo
aquilo que acontecerá a Jesus. Para os homens será um derrotado,
para o Pai «o eleito», o servo fiel de quem ele se alegra.
Escutai-o,
diz a voz do céu, mesmo quando parece propor caminhos demasiado
difíceis. No final do episódio, Jesus fica
sozinho. Este pormenor
indica a função do Antigo Testamento: conduzir até Jesus, realçar
Jesus.
Chave de interpretação: este episódio é colocado por Lucas
oito dias
depois de Jesus ter
feito o anúncio dramático da sua paixão, morte e
ressurreição, oito dias
depois de ter enunciado
as condições para quem o quer seguir: «negue-se a si mesmo, tome a
sua cruz, dia após dia» (Lc 9, 23).
O Oitavo
dia é o dia do
Senhor, o domingo, aquele em que a comunidade se reúne para ouvir a
sua palavra e partir do pão. Todos os
domingos os discípulos
que se encontram para celebrar a Eucaristia sobem «ao monte», vêem
o rosto de Jesus transfigurar-se, ou seja ressuscitado, verificam
na fé que o seu «caminhar» não se conclui com a morte e ouvem
novamente a voz do céu que dirige o convite: Escutai-o.
Os discípulos não entenderam nada, por isso permaneceram calados.
Hoje o mundo precisa de novos arautos da morte e ressurreição de
Jesus, não há quem fale desta realidade e muito menos da sua
presença vivificante no meio de nós. Somos portanto comunidade que
faz experiência desta realidade, tenhamos a coragem também de o
anunciar.