Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

Domingo I da Quaresma C
As tentações de Jesus

b.184.184.16777215.0.stories.preghiera.lectio_divina.tentazioni-copy


Da análise dos textos bíblicos emerge um dado curioso: os ímpios nunca são tentados por Deus; a tentação é um privilégio reservado aos justos. A tentação oferece a oportunidade de dar um salto em frente, de melhorar, de se purificar, de consolidar as escolhas da fé. Comporta também o risco do erro porque o fascínio do mal obscurece o bem (sb 2, 1). Todavia, a tentação não é uma provocação ao mal, mas um estímulo ao crescimento, uma passagem obrigatória para atingir a maturidade.

Todos os anos, no I domingo da Quaresma, a liturgia quer que se faça uma reflexão sobre as tentações de Jesus. Apresenta o modo como o mestre as enfrentou para nos indicar como podem ser reconhecidas e ultrapassadas.

As três tentações:

1 - A tentação da solução material
A primeira tentação que Ele recusa é a tentação da solução material do problema humano: “
Ordena a essas pedras que se transformem em pão” – uma espécie de subsídio de alimentação.

Esta tentação leva-nos a pensar na atitude solidária de Jesus para com a humanidade. Ao partilhar a condição humana certamente teve a tentação, porque era Deus, de
escapar das dificuldades que as pessoas comuns encontram. O demónio faz-lhe a proposta para não exagerar na sua identificação com os homens, sugere-lhe que faça milagres para sua vantagem pessoal. Se Jesus o tivesse escutado teria renunciado a ser um de nós, não teria sido realmente homem, teria feito de conta que o era.
É certo que, muitas vezes, Cristo parecerá ceder à tentação da multiplicação dos pães. Dará várias vezes sinais, curará doentes, resolverá problemas humanos terríveis – ao ressuscitar a filha de Jairo e o filho da viúva de Naím – e muitas vezes dará de comer à multidão.

Jesus nunca deixará que esta capacidade divina que Ele tem de resolver o problema humano – o facto de que, em última análise, Deus pode fazer milagres – se torne o critério de adesão à sua proposta.

É bom que haja milagres pelos quais, no tempo de Jesus e no tempo da Igreja, de vez em quando, o Senhor cure os doentes. Mas o grande milagre é nós sermos capazes de viver com a doença, a velhice e, em última análise, com a morte, de uma maneira humana e digna. É bom que haja milagres para matar a fome aos pobres. Mas o grande milagre é nós sermos capazes de arranjar maneira, com a força da caridade e com a inventiva da criatividade, de matarmos nós a fome aos pobres. Os países desenvolvidos têm procurado melhorar esta realidade, mas nem sempre da melhor maneira: Deus deu, por exemplo, as sementes para produzirem o seu fruto, mas o homem esterilizou-as. Criaram uma super-semente que seria a resolução do problema da fome no mundo. Bastaria comprar essa semente para terem fruto abundante, de óptima qualidade, mas cada ano é preciso comprar novamente, a preço muito caro, porque ela só têm capacidade para produzir uma só vez.

Nesta primeira cena é identificado e denunciado o modo errado com que o homem se relaciona com as realidades materiais. É diabólico o uso egoísta dos bens, acumular para si próprio, viver do trabalho dos outros, procurar o prazer a todo o custo, esbanjar no luxo e no supérfluo, enquanto aos outros falta o necessário.

2 - A tentação da fama
A primeira tentação denunciava o modo errado de se relacionar com as coisas, esta segunda ajuda a identificar o modo diabólico com que é possível relacionarmo-nos com as pessoas, com o próprio semelhante.

A escolha é entre
dominar e servir, entre competir e ser solidário, entre subjugar e tornar-se servo. Esta escolha manifesta-se em cada atitude e condição de vida: quem estudou ou atingiu uma posição de prestígio, pode ajudar a crescer quem teve menos sorte do que ele, mas pode também servir-se disso para humilhar quem é menos dotado. Quem é rico, quem detém o poder … o desejo de poder é de tal forma irrefreável que, até mesmo quem é pobre, é tentado a subjugar quem é mais fraco do que ele.

A tentação da fama e da sedução é uma tentação que permanece viva na história da Igreja e na vida de cada um de nós – a tentação de nos deixarmos seduzir pela religião espectáculo do poder, da sedução e da facilidade.

Se Jesus tivesse saltado do pináculo teria conquistado as massas. Jesus, porém, recusa.
Atira-te daqui a baixo e todos acreditarão em ti: é uma tentação que vai perdurar ao longo de toda a vida de Jesus. No último instante, pregado na cruz, os fariseus virão ter com ele e dirão: desce daí a baixo e acreditaremos em ti. Obrigado, Jesus, por não teres sucumbido a esta tentação. Graças a ti, obtemos a redenção pela tua morte de cruz, porque a minha experiência humana não é salva com gestos espectaculares, mas com a minha experiência humana assumida por Deus até ao fim, até à última gota da experiência humana.

3 - A tentação do poder
A terceira tentação é a mais perigosa porque põe em causa a relação entre o homem e Deus. A proposta diabólica é até baseada na Bíblia:
atira-te daqui a baixo porque está escrito… A mais enganadora das astúcias do mal é a de se apresentar com um rosto cativante, assumir um ar devoto, servir-se da palavra de Deus, deturpada e interpretada de modo enganador, para levar por outro caminho.

O objectivo máximo do maligno não é o de provocar alguma cedência moral, mas
minar pela base a relação com Deus. Este objectivo é alcançado quando, na mente do homem, se insinua a dúvida de que o Senhor se mantenha as suas promessas, que garanta a sua protecção mas depois abandone aquele que confiou nele. Desta dúvida nasce a necessidade de provas. No deserto o povo de Israel, extenuado pela fome, pela sede e cansaço, cedeu a esta tentação e exclamou: Está o senhor no meio de nós ou não? Provocou o seu Deus dizendo: se está do nosso lado, se realmente nos acompanha com o seu amor, que se manifeste concedendo-nos um sinal, fazendo um sinal, fazendo um milagre.

Jesus nunca cedeu a esta tentação. Nunca pediu um sinal ao pai, uma prova do seu amor, mesmo nos momentos mais dramáticos. Quando o Senhor não realiza os nossos sonhos, começam as queixas: onde está Deus? Quem sabe se existe! Se ele não dá provas de amor que nós exigimos, é fácil que a fé frágil desmorone.
Dar-te-ei estes reinos – Mas o poder não é um fim em si próprio. O poder é esta modalidade de serviço à comunidade que tem como função criar as condições para que cada homem possa ser plenamente homem.

A autoridade é um carisma, um dom de Deus à comunidade para que nela cada um possa encontrar o seu lugar e ser feliz. O poder, ao contrário, é diabólico, mesmo se exercido em nome de Deus. Onde quer que se exercite o domínio sobre o homem, onde quer que alguém seja obrigado a ajoelhar ou a inclinar-se perante um semelhante, ali está a trabalhar a lógica do maligno. A autoridade está ao serviço da pessoa. E, por isso, é ministerial, é serviço de Deus. Dá-se conta dela – a autoridade – a Deus, por ter criado as condições da liberdade mediante as quais cada homem se pode julgar a si próprio, na busca das suas próprias perfeição e plenitude.

Em última análise, e sem querer complicar demais a reflexão, se há um pecado que a Igreja portuguesa cometeu na segunda metade do século passado foi o de ter confiado demais numa evangelização feita por via estadual: uma cruz em cada escola, todas as professoras primárias eram catequistas, os professores primários perguntavam aos meninos no fim da quarta classe se queriam ir para o seminário, os meninos mais espertos iam para o seminário, a nação toda consagrada ao Coração Imaculado de Maria, um monumento a Cristo Rei. Claro que é preciso ver que isto foi depois de perseguição à Igreja Católica e que, também, não é que o sistema estivesse mal. Mas toda a confiança da Igreja estava entregue ao sistema, estava entregue à confiança do esquema – a confiança da Igreja estava posta no sistema para evangelizar, aqui e no ultramar. A Igreja esperava que o poder, o estado, fizesse o seu trabalho.

Estou a exagerar, estou a ser injusto, não é bem assim, é preciso ver isto com matizes e claro que há muito a dizer a favor da obra de evangelização realizada na segunda metade do século. Mas a tentação do poder não esteve ausente.
Na Guiné, por exemplo, pode-se dizer que da nossa evangelização não ficou nada. Os nossos catequistas voltaram-se para a poligamia depois da retirada e, agora, recomeça-se praticamente do zero. Será que podemos perceber o limite entre o que é os pais educarem os filhos cristãmente e o que é fazerem-nos cristãos pela via do poder? Quando tudo influencia os meninos a ir à missa ao Domingo, prolonga no tempo uma fé adquirida na liberdade. Desta cedência à tentação do poder nascem também os desgostos e desilusões. Isto não está muito longe do que tem sido a História da Igreja. O papa, no ano jubilar, pediu perdão das vezes em que a Igreja quis evangelizar usando o poder, das vezes em que a Igreja cedeu a esta terceira tentação do monte das tentações. Ora, é dizendo que não, com Cristo, a estas tentações, que nós aprendemos o gosto e a liberdade de ser cristãos. A maior maravilha da experiência humana consiste em dizer que sim a Deus!

Certamente todos notamos que o demónio pretende desviar Cristo do projecto do Pai. Também para nós o tempo de Quaresma pode ser a ocasião propícia para verificar se o nosso projecto corresponde ao de Deus. Para desprezar uma religiosidade construída à nossa medida é preciso limpar também as falsas ideias e imagens que temos de Deus que diz: eu não quero sacrifícios mas um coração humilhado e contrito.