Domingo III da Quaresma
C
A
figueira ressequida

A
Páscoa está para os cristãos assim como o êxodo está para os
Judeus, porque tal como a Páscoa foi determinante para os
discípulos de Cristo, esse momento originário sem o qual não
haveria Cristianismo, também o êxodo do Egipto foi determinante
para que o povo de Deus, os israelitas, tomasse consciência da
grandeza de Deus que o chamava à liberdade.
Êxodo quer dizer “saída” (do Egipto) e acarreta um significado
teológico profundo: também significa “passagem” da escravidão para
a liberdade, ou ainda “experiência de Deus”, tal como o povo de
Deus o experimentou no deserto. Noutro sentido, êxodo também poderá
significar “mudar de vida”, “arriscar” ou “acreditar”.
Se olharmos para o judaísmo primitivo vemos que ele não dá uma
resposta à pergunta “o que é Deus?”, porque para o Judeu não
interessa o sentido filosófico ou o significado conceptual de Deus,
mas o que Deus fez pelo seu povo. Se lermos atentamente os
primeiros livros do Antigo Testamento – o Pentateuco – notamos,
certamente, que, para o redactor, Deus é aquele que está presente
nos acontecimentos. Por isso, não diz «Deus é isto», mas diz «Deus
fez isto por nós».
Ao longo da nossa vida fazemos algumas vezes uma experiência de
“êxodo”: quando passamos do estado de infância ao estado de adulto
e aprendemos a pensar e a tomar posição, quando tomamos uma
resolução importante que possa modificar a nossa vida, como
arranjar emprego, nem que para isso tenha que abandonar a minha
aldeia e o lugar onde vivo; ou então quando alguém se propõe a
constituir uma família, através do sacramento do matrimónio, neste
sentido significa “mudar de vida”, “arriscar”, “acreditar”…
Mas existem também pequenos “êxodos” que experimentamos, que, por
serem pequenos, quase já nem lhes damos valor, por exemplo, o
descanso depois do trabalho, a paz depois da discussão, a alegria
depois da tristeza. São momentos que se repetem tantas vezes na
nossa vida que nós já não sabemos dar valor e, muito menos,
interpretar.
No entanto, quero chamar a atenção para o significado de êxodo como
“encontro com Deus” e “experiência de Deus”. Simone Weil diz que só
se fala de Deus por experiência. Quando falamos de Deus e não o
experimentamos, Deus fica reduzido a conceitos. Quando, porém,
falamos por experiência, Deus é vida, fonte, sal e luz. Se pedisse
agora para me falarem de Deus, obteria uma resposta diferente por
pessoa, porque cada um experimenta-o de maneira diferente. Por
isso, é pena que nos nossos dias, Deus esteja excluído das nossas
conversas, porque seria para nós uma grande fonte de
enriquecimento, porque cada pessoa tem uma experiência diferente de
Deus. Acrescento, porém, que se não temos necessidade de falar de
Deus, é porque já não o experimentamos, porque temos sempre
necessidade de falar do resultado das nossas experiências.
Na Quaresma ouvimos sempre as leituras sobre a grande experiência
de Deus dos Israelitas, aquando da saída do Egipto, a passagem do
mar vermelho, a sua experiência no deserto, as tábuas da lei…e que
S. Paulo relembra aos cristãos de Corinto, porque esse foi um tempo
de provação e dificuldade, mas que todos souberam interpretar à luz
da fé e da grandeza de Deus que, através de pequenos sinais se ia
revelando.
Quaresma é, portanto, um convite para que façamos uma experiência
de Deus mais intensa, que preparemos o nosso coração e a nossa
mente para sabermos acolher em nossa vida esse grande acontecimento
que se transformou em fonte de Esperança para nós: a
ressurreição.
Muitos daqueles que se propõem a aprofundar a sua experiência de
Deus, pedem a Deus que lhes revele o caminho para chegar até Ele.
Contudo, quando a resposta lhes é dada exigindo cruz e renúncia,
logo abandonam os seus propósitos. Certamente, já não se dá tanto
valor aos Jejuns e renúncias de alguns anos atrás. Sabemos que o
caminho é esse, mas é preciso que esses nossos sacrifícios nos
conduzam ao amor, para não se tornar, como diz S. João da Cruz,
coisa de animais. Só a vontade de amar cada vez mais nos move para
todas as coisas e só o amor dá sentido à nossa vida, aos
sacrifícios quotidianos e à Quaresma.
É este amor que nos faz estar aqui, não simplesmente para cumprir o
preceito de vir à missa ao Domingo, mas para que este encontro com
Deus nos faça amar mais durante a semana e em cada dia. Neste
sentido, eucaristia é também um êxodo, porque é experiência de Deus
e do seu sacrifício, mas também é saída para a missão e para o
amor.
Por fim, chamo a atenção para o Evangelho que escutamos, cheio de
actualidade. Jesus começa por explicar que aqueles que morreram por
mandato de Pilatos ou as vítimas da queda da derrocada de Siloé,
não pereceram por serem pecadores, mas por fatalidade. O mesmo se
pode dizer hoje, os que morreram no dia 11 de Setembro de 2002, ou
no 11 de Março de 2004, vítimas do terrorismo, no terramoto do
Tahiti e na tempestade da Ilha da Madeira, não pereceram porque
eram mais pecadores que os outros. Jesus explica que estes
acontecimentos são para nós motivos de conversão, porque o que
aconteceu com aquelas vítimas pode acontecer também connosco. O
tema é seguramente o da vigilância por isso explica-o à luz da
imagem da figueira ressequida.
Tenhamos presente que os figos e as vinhas tinham um significado
muito particular para os israelitas: eram sinal da sua instalação
na terra prometida e recordavam também o paraíso perdido (éden).
Quando Deus planta uma árvore que não é para adorno, é natural que
espere frutos. O mesmo se pode dizer em relação aos seres
humanos.
Porque não produz fruto, a paciência de Deus está a esgotar-se.
Como não deu fruto, é tempo de condenação: corta-a. Mas o vinhateiro intercede continuamente em
nosso favor diante do Pai e consegue um prazo. Talvez com um pouco
de amor e cuidados a figueira volte a produzir fruto. Apesar das
desilusões, Deus espera sempre pelo ser humano e dá-lhes novas
oportunidades.
Esta parábola pode ser lida assim: Deus tinha uma Comunidade, uma
família, uma pessoa que não produzia fruto e … talvez no final
possamos apenas dizer ao Senhor que não temos capacidade para
produzir fruto e que ele nos perdoe porque nos vê a correr para
aquele que produziu os frutos desejados do Pai, Jesus Cristo, a
única árvore que não atraiçoa as esperanças.