Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

Domingo da Santíssima Trindade (Ano C)
«Ele vos guiará para a verdade plena.»

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Hoje fala-se com frequência, e por vezes de maneira triunfalista, de um regresso ao sagrado, de um regresso ao espiritual, de um regresso de Deus, depois de, durante tanto tempo, muitos terem vitoriado o seu desaparecimento e a sua morte. Surge, porém, uma pergunta: de que sagrado, de que deus, se celebra o regresso? Teremos de ficar contentes porque a necessidade espiritual se manifesta na proliferação das seitas? Será positivo o recurso cada vez mais frequente à magia e à evocação dos mortos? Como classificar a difusão de práticas exotéricas e de religiões orientais? Que deus é este que perturba por completo as mentes de tantos fanáticos que, em seu nome, se tornam intolerantes e recorrem à violência?... a fé dos judeus ou a fé dos muçulmanos é equivalente à nossa?

Não se trata simplesmente do nome com que chamamos e invocamos a Deus, mas do rosto que lhe atribuímos. Podemos perguntar-nos, por exemplo: o nosso Deus é solitário ou é comunidade? Acolhe as pessoas ou é ciumento da sua intimidade e não quer que ninguém o incomode? Inclina-se sobre os homens, preocupa-se com os seus problemas ou fica apenas à espera que lhe ofereçam sacrifícios, obedeçam às suas leis, o exaltem com louvores e cânticos, se prostrem diante dele e o invoquem a tremer? É bom e compreensivo ou é um juiz severo que castiga sem piedade? Ama a todos ou só salva os bons? Está sempre no céu ou ás vezes desce à terra para se encontrar com os homens?

Não faço estas questões por acaso. A cada uma delas corresponde o rosto dum deus adorado por qualquer povo. Allá, o deus dos muçulmanos, será diferente do nosso só por causa do nome? Que relações tem com o homem o deus das tribos africanas? O que é que caracteriza o deus de tantas seitas religiosas que conhecemos?

Todos nós estamos convencidos que somos adoradores do Deus de quem falou Jesus, mas, se alguém nos pedisse para falarmos do nosso Deus, para descrever o que Ele faz, saberíamos responder? Estou convencido de que, na prática, falaríamos de um deus não muito diverso do dos muçulmanos, dos pagãos ou de outras religiões.

A solenidade da Santíssima Trindade que hoje celebramos ajuda-nos a purificar o nosso coração das falsas imagens de Deus que, conscientemente ou não, assimilámos. A liturgia escolheu para a solenidade deste ano C uma série de textos que nos ajudam a perceber a originalidade do Cristianismo, no qual a salvação é sempre uma obra trinitária. O tema descobre-se facilmente no texto evangélico de S. João (Jo 16, 12-15) e no texto paulino de Rom 5, 1-5. Encontra-se também na primeira leitura (Prov 8, 22-31), mas de forma velada.

O texto evangélico orienta-nos para a “verdade plena”. Trata-se de uma verdade que abraça dois mundos: o mundo o conhecimento e o mundo da realidade vivida. Não se trata apenas da verdade ligada ao mistério da revelação, mas também para aquelas realidades que se seguiram à morte e ressurreição de Jesus. Os crentes serão conduzidos para a plenitude desta verdade através do Espírito Santo. O Espírito, por sua vez, não é o único agente desta empresa porque o anúncio que se seguirá será o anúncio daquela verdade que estava em Jesus Cristo e, por este motivo, é toda a verdade do Pai. Tudo o que é de Cristo pertence também ao Pai.

Porque esta verdade (conhecimento e realidade) não se compreende imediatamente em toda a sua riqueza, o Espírito Santo será aquele que ao longo da história realizará esta obra de aprofundamento, num modo delicado e caloroso. No coração do homem, de facto, a revelação da verdade é feita através do amor de Deus que é dado pelo Espírito.
Esta obra encontra-se simbolizada na acção da Sabedoria que, segundo a primeira leitura, foi contemporaneamente “arquitecto” da criação divina e “presente” entre os filhos do homem. Não esqueçamos que a criação foi feita por Deus através da Palavra (Gen 1,1-2,4). Na revelação cristã a palavra de Deus é Jesus Cristo (Jo 1, 1-18). A Sabedoria é, portanto, aquele que desvela e explica esta Palavra na criação.

Este modo de reflectir é típico da liturgia que transmitiu em forma de oração o modo de nos aproximarmos ao mistério do Pai criador e Filho, a sua Palavra, e do Espírito, a sua Sabedoria: «Tudo quanto revelastes acerca da vossa glória, nós o acreditamos também , sem diferença alguma, do vosso Filho e do Espírito Santo. Professando a nossa fé na verdadeira e sempiterna divindade, adoramos as três Pessoas distintas, a sua essência única e a sua igual majestade» (Prefácio).