Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

Domingo XVI do Tempo Comum C
«Sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra»

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Alguns admiram-se pelo facto de Maria Madalena ter chamado a Jesus ressuscitado com o nome de rabbuni, palavra que o quarto evangelista traduz por «Mestre» («meu Mestre», seria mais preciso). Como não existia, no tempo de Jesus, um discipulado feminino, há quem faça estranhas conjecturas sobre a relação afectiva entre Maria Madalena e Jesus. É necessário, portanto, esclarecer que Jesus é o primeiro rabino que abre as portas ao discipulado feminino. O fundamento desta iniciativa encontra-se no episódio evangélico deste domingo.

O episódio de Marta e Maria (Lc 10, 38-42), conhecido no mundo cristão ocidental como o episódio que funda a vida religiosa activa (Marta) e a vida religiosa contemplativa (Maria), deverá ser aprofundado. Existe no texto uma expressão que parece ter um valor poético: «Maria… sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra». Este texto português teria a seguinte fisionomia em grego: «E esta (Marta) tinha uma irmã chamada Maria, a qual sentada junto aos pés do Senhor (em grego
pròs toùs pòdas tou Kirìou) escutava a sua palavra». A expressão “junto aos pés do Senhor” é uma expressão técnica para indicar o discipulado. Paulo, de facto, quando foi preso sob a custódia do centurião em Jerusalém, falou aos judeus e disse-lhes que foi formado «na escola de Gamaliel» (em grego seria parà toùs pòdas Gamaliel = junto aos pés de Gamaliel). A expressão indica claramente o seu discipulado na escola de Gamaliel. Maria, portanto, tinha escolhido ser discípula de Jesus, recebendo a sua plena aprovação. A partir daqui melhor se entende que Jesus tenha dito que Maria escolheu a melhor parte.

Para além do tema do discipulado feminino, está presente na passagem evangélica o tema do acolhimento. Pouco antes deste episódio os samaritanos tinham recusado Jesus por motivos religiosos (Lc 9, 52-53). As duas irmãs, porém, acolhem Jesus através do serviço e da escuta. Trata-se de um gesto humaníssimo e contemporaneamente rico de valências teológicas. Os hebreus sabiam que Abraão tinha acolhido três hóspedes junto do carvalho de Mambré (primeira leitura), colocando-se ao seu serviço. Era Deus acompanhado por dois anjos. O Senhor tinha vindo para anunciar o tanto desejado filho da promessa: Isaac.

O acolhimento manifestou-se, portanto, no serviço e na escuta da Palavra. Jesus exprime claramente a hierarquia destes dois modos inseparáveis. Primeiro vem a Palavra e sucessivamente o serviço. A mensagem é forte. Antes de qualquer serviço (= diaconia) deve-se ter escutado a Palavra. Sem a Palavra a diaconia poderia reduzir-se ao mero activismo ou a uma pura filantropia enganosa, com maior proveito para quem a cumpre do que para o destinatário. Hoje, infelizmente, existe o perigo de reduzir a caridade à filantropia, esquecendo a dimensão da fé que conduz primeiramente à escuta de Jesus na Palavra para melhor o escutar no necessitado.

Há ainda um outro tema subtil e determinante. Para Marta fazer o bem a Jesus equivale a servi-lo: esta era o dominador comum de uma mulher. Para Jesus, “sentir-se amado”, equivalia a “fazer-se ouvir”. Por conseguinte, Ele não reprova o amor de Marta, mas orienta-o simplesmente. O próprio Jesus, diante do cego de Jericó, não se importa de amar sem perguntar ao cego como deseja ser amado. Por este motivo o Senhor dirá: «Que queres que te faça?» (cf. Mc 10, 51).