Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

Domingo XV do Tempo Comum C
«E quem é o meu próximo?»

b.184.184.16777215.0.stories.priore.evangelodelladomenica.img_4347_buon_samaritano_c0


Há um modo curioso de interpretar a parábola do bom samaritano: o mercador seria o cristão, os salteadores, os pecadores. O levita e os sacerdotes representariam as forças humanas incapazes de salvação; o samariatano é Jesus. O azeite e o vinho seriam a sua bondade e misericórdia, o jumento que transporta o ferido, a natureza humana de Jesus. As duas moedas seriam os dois grupos de sacramentos (sacramentos de cura e de serviço); o regresso do samaritano indicaria a parusia. Trata-se de uma interpretação proveniente da época patrística. É simpática, mas nem a exegese de Orígenes permitiria uma leitura deste tipo. É preciso, no entanto, considerar o prefácio VIII Comum (para os dias feriais) que identifica o bom samaritano com Jesus, tal como sucedia na interpretação alegórica da época patrística: «Na sua vida mortal, Ele passou fazendo o bem e socorrendo todos os que eram prisioneiros do mal. Ainda hoje, como bom samaritano, vem ao encontro de todos os homens atribulados no corpo ou no espírito e derrama sobre as suas feridas o óleo da consolação e o vinho da esperança».

Toda a parábola está enquadrada entre duas perguntas, iguais e diferentes: «Quem é o próximo?». O doutor da lei pergunta: «Quem é o meu próximo?». E Jesus pergunta: «Quem é o próximo daquele homem?». O doutor da lei está a perguntar quem é o próximo, no sentido de quem é aquele que ele tem de amar. Diz-lhe Jesus: «O que é que está escrito na lei? Como é que a lês?» e o doutor da lei responde-lhe: «Amarás a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo». Então, a pergunta do doutor da lei de «Quem é aquele que eu tenho de amar como a mim mesmo?».

E essa pergunta, «Quem é aquele que eu tenho de amar?», tem implícita a pergunta: «Quem é aquele que eu não tenho de amar?». Se tu me delimitares com precisão aqueles que eu tenho de amar, fica definido o campo daqueles que eu não tenho de amar. A pergunta do doutor da lei tem este sentido.

Ora, Jesus conta a parábola e, no fim de contar a parábola, do homem caído na beira da estrada, de quem ninguém quis saber a não ser o samaritano, pergunta: «Quem foi o próximo daquele homem caído na beira da estrada?». Já não tinha sentido perguntar quem é que aquele homem caído na beira da estrada tinha de amar, mas sim quem é que o amou.

Há uma inversão da direcção dos factores. Ou seja, já não é o amante que pergunta quem é ou deixou de ser amado, mas é, daquele que necessita de ser amado, que é o seu próximo, quem o ajudou. Mas o doutor da lei cai completamente na cilada e responde: «Aquele que usou de misericórdia para com ele».

É tão óbvio que a pergunta de Jesus
corresponde tão melhor à intuição do coração, à medida da inteligência, do que o esquema que ele traça primeiro, que ele não pode deixar de responder: «Aquele que usou de misericórdia para com ele». E, assim, liberta-se da pergunta, maldita, com que anteriormente lhe tinha dito: «Distingue-me aí quem é que eu tenho de mar e quem posso não amar».

Mas, o que liberta daquele esquema não é uma argumentação, nem sequer uma argumentação teológica, não é nada disso. É a imediatez, a actractividade imediata, da maneira como Jesus coloca o problema do amor do próximo. Está ali alguém que necessita de ajuda e, o que o ajudou, esse é o próximo. «Vaie procede tu da mesma maneira».

Quando percebemos esta lógica da caridade, que ultrapassa todos os nossos esquemas de selecção de pessoas e de escolhas preferidas, que radica na pura receptividade da condição humana, na imediata comoção do coração diante da evidência da necessidade humana, percebemos que aquele homem, aderindo imediatamente à explicação de Jesus, sem dar por isso, manifesta como a verdade é atractiva ao coração. Então, isto explica como é próxima do nosso coração a Sua palavra.

Caindo imediatamente diante da beleza resplandecente da verdade revelada, o coração do homem é convidado a reconhecer esta
correspondência. Mas uma correspondência assim não se reconhece sem uma ascese, sem uma purificação, sem um sacrifício, sem uma vitória sobre si próprio. De facto, em última análise, a parábola fala da caridade de Cristo, da caridade de Cristo pelo homem. A caridade de Cristo pelo homem que é a medida da nossa caridade. Quem é que foi o próximo do homem? Jesus Cristo. Jesus Cristo foi e continua a ser o próximo de todo o homem. Jesus Cristo foi o meu próximo. Veio até mim, deitado na beira da estrada, veio ao meu encontro e salvou-me. Então, Ele usou de misericórdia para comigo: «Vai e faz tu também do mesmo modo». E é nesta misericórdia de Cristo para connosco que está o fundamento e a razão de ser da misericórdia a que somos convidados pelos nossos irmãos.