Domingo XV do Tempo Comum
C
«E
quem é o meu próximo?»

Há um
modo curioso de interpretar a parábola do bom samaritano: o
mercador seria o cristão, os salteadores, os pecadores. O levita e
os sacerdotes representariam as forças humanas incapazes de
salvação; o samariatano é Jesus. O azeite e o vinho seriam a sua
bondade e misericórdia, o jumento que transporta o ferido, a
natureza humana de Jesus. As duas moedas seriam os dois grupos de
sacramentos (sacramentos de cura e de serviço); o regresso do
samaritano indicaria a parusia. Trata-se de uma interpretação
proveniente da época patrística. É simpática, mas nem a exegese de
Orígenes permitiria uma leitura deste tipo. É preciso, no entanto,
considerar o prefácio VIII Comum (para os dias feriais) que
identifica o bom samaritano com Jesus, tal como sucedia na
interpretação alegórica da época patrística: «Na sua vida mortal,
Ele passou fazendo o bem e socorrendo todos os que eram
prisioneiros do mal. Ainda hoje, como bom samaritano, vem ao
encontro de todos os homens atribulados no corpo ou no espírito e
derrama sobre as suas feridas o óleo da consolação e o vinho da
esperança».
Toda a parábola está enquadrada entre duas perguntas, iguais e
diferentes: «Quem é o próximo?». O doutor da lei pergunta: «Quem é
o meu próximo?». E Jesus pergunta: «Quem é o próximo daquele
homem?». O doutor da lei está a perguntar quem é o próximo, no
sentido de quem é aquele que ele tem de amar. Diz-lhe Jesus: «O que
é que está escrito na lei? Como é que a lês?» e o doutor da lei
responde-lhe: «Amarás a Deus sobre todas as coisas e o próximo como
a ti mesmo». Então, a pergunta do doutor da lei de «Quem é aquele
que eu tenho de amar como a mim mesmo?».
E essa pergunta, «Quem é aquele que eu tenho de amar?», tem
implícita a pergunta: «Quem é aquele que eu não tenho de amar?». Se
tu me delimitares com precisão aqueles que eu tenho de amar, fica
definido o campo daqueles que eu não tenho de amar. A pergunta do
doutor da lei tem este sentido.
Ora, Jesus conta a parábola e, no fim de contar a parábola, do
homem caído na beira da estrada, de quem ninguém quis saber a não
ser o samaritano, pergunta: «Quem foi o próximo daquele homem caído
na beira da estrada?». Já não tinha sentido perguntar quem é que
aquele homem caído na beira da estrada tinha de amar, mas sim quem
é que o amou.
Há uma inversão da direcção dos factores. Ou seja, já não é o
amante que pergunta quem é ou deixou de ser amado, mas é, daquele
que necessita de ser amado, que é o seu próximo, quem o ajudou. Mas
o doutor da lei cai completamente na cilada e responde: «Aquele que
usou de misericórdia para com ele».
É tão óbvio que a pergunta de Jesus corresponde tão melhor à intuição do coração, à medida da
inteligência, do que o esquema que ele traça primeiro, que ele não
pode deixar de responder: «Aquele que usou de misericórdia para com
ele». E, assim, liberta-se da pergunta, maldita, com que
anteriormente lhe tinha dito: «Distingue-me aí quem é que eu tenho
de mar e quem posso não amar».
Mas, o que liberta daquele esquema não é uma argumentação, nem
sequer uma argumentação teológica, não é nada disso. É a imediatez,
a actractividade imediata, da maneira como Jesus coloca o problema
do amor do próximo. Está ali alguém que necessita de ajuda e, o que
o ajudou, esse é o próximo. «Vaie procede tu da mesma
maneira».
Quando percebemos esta lógica da caridade, que ultrapassa todos os
nossos esquemas de selecção de pessoas e de escolhas preferidas,
que radica na pura receptividade da condição humana, na imediata
comoção do coração diante da evidência da necessidade humana,
percebemos que aquele homem, aderindo imediatamente à explicação de
Jesus, sem dar por isso, manifesta como a verdade é atractiva ao
coração. Então, isto explica como é próxima do nosso coração a Sua
palavra.
Caindo imediatamente diante da beleza resplandecente da verdade
revelada, o coração do homem é convidado a reconhecer esta
correspondência. Mas uma correspondência assim não se reconhece sem uma ascese, sem uma
purificação, sem um sacrifício, sem uma vitória sobre si próprio.
De facto, em última análise, a parábola fala da caridade de Cristo,
da caridade de Cristo pelo homem. A caridade de Cristo pelo homem
que é a medida da nossa caridade. Quem é que foi o próximo do
homem? Jesus Cristo. Jesus Cristo foi e continua a ser o próximo de
todo o homem. Jesus Cristo foi o meu próximo. Veio até mim, deitado
na beira da estrada, veio ao meu encontro e salvou-me. Então, Ele
usou de misericórdia para comigo: «Vai e faz tu também do mesmo
modo». E é nesta misericórdia de Cristo para connosco que está o
fundamento e a razão de ser da misericórdia a que somos convidados
pelos nossos irmãos.