Domingo XIII do Tempo Comum
C
«O
Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça»

Cada homem, de
modo misterioso, recebe na sua vida o chamamento de Deus. O
Espírito Santo, que possui a mesma fantasia infinita de Deus,
propõe à humanidade uma grande variedade de caminhos para que cada
um possa alcançar e transmitir Deus na alegria da sua própria vida:
o caminho de Eliseu constitui um exemplo veterotestamentário e o
caminho de alguns discípulos anónimos constitui um exemplo
neotestamentário.
Os convites neotestamentários estão precedidos por um episódio que
nos apresenta a rejeição de Jesus pelos samaritanos (Lc 9, 51-56).
Não se trata de uma sequência inócua. Lucas, de facto, pretende
mostrar como o Mestre foi contestado pelos homens, aqueles que Ele
veio para salvar. Do mesmo modo o discípulo, pela sua vocação,
assume todos os riscos, incluindo o cansaço da recusa, da
generosidade não reconhecida, do sacrifício não apreciado. A
fidelidade ao chamamento não se fundamenta no apreço dos homens,
mas constrói-se pela fidelidade aos mandamentos do Senhor. O
discípulo não é, pois, um genérico simpatizante, nem um espectador
propenso para o sentimentalismo que aplaude, de longe a longe, o
ideal cristão. O discípulo não é aquele que considera a relação com
Jesus como um contracto de segurança, que se guarda na gaveta, para
qualquer eventualidade. Também não é aquele que se honra de pagar,
uma vez ou outra, uma certa quantia para pagar os seus
deveres.
Todo aquele que ama verdadeiramente a Cristo está disposto a
segui-lo e a cumprir as suas condições. Quem quiser ser contado
entre os seus não impõe limites ao tempo. É Jesus que dá a
entender, sem meios termos, para o que se deverá preparar aquele
que o quer seguir. E o que pede? Pede a liberdade e a
disponibilidade daqueles que não estão agarrados a uma cova, a um
refúgio, a qualquer lugar aparentemente cómodo, construído para se
sentir seguro. O próprio Jesus não tem onde «reclinar a cabeça».
Pede para ser colocado em primeiro lugar, antes dos vínculos de
sangue e das relações afectivas. Porque, mais cedo ou mais tarde,
será necessário ultrapassar os conflitos, decidindo de que parte
quer ficar.
Para nós, cristãos do século XXI, que vamos constatando que somos
apenas uma minoria e nos cansamos de andar contra a corrente, as
palavras de hoje são particularmente luminosas. Convidam-nos a
ultrapassar os medos, a ansiedade que nos invade quando somos
interpelados por aqueles que não partilham o evangelho de Jesus, ou
que simplesmente se servem dele como forma de protesto para vincar
outras posições. Convidam-nos a reencontrar a liberdade dos
primeiros discípulos, a sua audácia, a sua confiança em Jesus
Cristo, Filho de Deus vivo.