Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

Domingo XII do Tempo Comum C
«Se alguém quiser vir comigo»

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Nos nossos dias prolifera a ideia de que o crente pode ser cristão como melhor lhe parecer. O evangelho (Lc 9, 18-24) deste domingo contraria esta ideia: só é discípulo aquele que segue o que Jesus determinou. E o que Ele determinou não é um cristianismo fácil e anárquico. As características do discípulo são claras: o discípulo renega a si próprio, toma a sua cruz e imita o Mestre. Qualquer realidade que enriqueça, amplifique, e aprofunde estes elementos é parte integrante do cristianismo. Por outro lado, se alguma realidade contradiz ou exclui estes elementos não faz parte do cristianismo. O que significa renegar a si próprio, tomar todos os dias a sua cruz e imitar o Mestre?

A confissão de Pedro constitui o centro do evangelho de Marcos. No evangelho de Lucas não acontece o mesmo. Para o terceiro evangelista, a confissão de Pedro (Lc 9, 18-21) está estritamente ligada à profecia da Paixão (Lc 9, 22-23) e à figura do discípulo (Lc 9, 23-24). O motivo é claro. Se o discípulo tem como modelo o Mestre, precisa de conhecer a sua verdadeira identidade. Este conhecimento não é fruto de uma decisão intelectual, mas provém de uma escolha que se fundamenta na oração: «Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos». Jesus propõe sem rodeios a sua identidade: oposição, sofrimento e alegria.
É difícil entender porque é que se continua a chamar a esta profecia “a primeira profecia da paixão”. Os verbos usados são: «tem de sofrer muito», «ser rejeitado», «tem de ser morto» e «ressuscitar ao terceiro dia». Seria, portanto, mais correcto falar da “primeira profecia da recusa-morte-ressurreição”. Neste contexto de sofrimento e de glória, Jesus especifica a figura do seu discípulo.

De acordo com o contexto do evangelho de Lucas, as características do discípulo são cinco: a liberdade de escolha («se alguém quiser vir comigo»), acolhimento da cruz («tome a sua cruz»), a perseverança («todos os dias»), a sequela («siga-me») e pensar como Jesus («Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á»). O elemento fundamental e único ponto de partida é a liberdade. O homem não pode “ser obrigado” a ser discípulo de Jesus. Segundo a narração de Mateus, Jesus faz a mesma esta proposta ao jovem rico: «Se quiseres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me» (Mt 19, 21).

Da proposta (e não da constrição) nasce a adesão do discípulo ao Mestre. Acolher na própria vida as situações de provação, de sofrimento, de perseguição e até de morte, não são uma opção, mas fazem parte da natureza de todo o cristão. Até a solidão e a incompreensão dos outros perante o modo de pensar e de decidir do cristão, fazem parte do vida do discípulo. A perseverança, no entanto, fornece ao discípulo a característica da continuidade e não do passageiro. Os crentes, de facto, «através da fé e da perseverança tornam-se herdeiros da promessa» (Heb 6, 12). Por fim, nem sempre o que homem aprecia como salvação é a verdadeira salvação de Deus. Do mesmo modo nem sempre a salvação de Deus é considerada como tal pelos homens. É, portanto, necessário que o homem raciocine segundo Deus e não segundo os homens.