Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

Domingo VI do Tempo Comum C
As Bem-aventuranças (Lc 6, 17.20-26)

Predicatore

Quando se fala em Bem-aventuranças logo pensamos na lei da Nova Aliança inaugurada por Jesus Cristo. Neste sentido, comparámo-las e pomo-las em paralelo com os dez mandamentos da Antiga Aliança que Deus deu a Israel por meio de Moisés.

É certo que, para nós, cristãos, as bem-aventuranças são pedra angular da nossa fé em Jesus, contudo, seria reduzir o seu valor tentar interpretá-las como uma legislação, convertendo-as num manual de normas morais que é necessário cumprir para a convivência. Também neste aspecto, comparámo-las com os mandamentos da lei de Deus, mas esquecemo-nos de que elas são a fonte da nossa liberdade e da nossa fraternidade entre os seres humanos – porque são a própria experiência de fraternidade de Jesus na sua vida concreta.

As bem-aventuranças constituem a página mais revolucionária do Evangelho porque nelas Jesus estabelece uma inversão total dos critérios humanos em relação à felicidade. Todo o ser humano quer ser feliz, cada um procura uma forma de o conseguir, conforme o que entende por felicidade: riqueza e dinheiro, êxito e posição social, poder ou prazer. Porém, Jesus propõe outro caminho, ainda que novo e paradoxal. Antes de Cristo, ninguém tinha proclamado Bem-aventurados os pobres e os que sofrem.

Ao proclamar “felizes os pobres”, Jesus apresenta-as como fonte de liberdade. Os seus discípulos são aqueles que são livres em relação a tudo e que não se deixam manipular nem hipnotizar pelos bens materiais, porque não permite que a riqueza se instale no seu coração. Os que assim procedem são como a árvore plantada à beira rio… (1ª Leitura).

Por isso, as bem-aventuranças reúnem as condições necessárias para que efectivamente se viva a fraternidade, não apenas como ideia ou projecto, mas como realidade universal, porque nasceram e se situam no lugar mais universal possível: o último posto da “categoria” humana. Desde a situação mais miserável, injusta e dolorosa constrói uma alternativa que inclui a todos, porque não há situação humana mais baixa que possa ficar fora da sua promessa de fraternidade.

Só desde o último posto se pode incluir a todos. Quando alguém deseja subir de posto já está a deixar alguém para trás. As bem-aventuranças projectam a pessoa desde a igualdade total que nos dá a certeza de sermos filhos do mesmo Pai. Mas, não só se situam no lugar mais baixo como também denunciam as atitudes que impedem que a fraternidade impere no mundo, porque elas estão delineadas desde a liberdade radical daquele que nunca procurou nada para si, que nunca teve medo de perder nada, porque não se apropriou nada, nem da sua condição divina, mas que se aniquilou a si próprio, deixando-se levar até à morte por aqueles que tinham escalado os postos mais altos da sociedade, o poder e a sabedoria e, por isso, no intuito de quem manda, não podiam consentir que alguém lhes dissesse que a verdade e Deus estava do lado de quem não tinha nada, os pobres e abandonados.

As bem-aventuranças desmascaram as armadilhas que todos nós, de certa forma, praticamos e que impedem a fraternidade e que são uma tentação inerente a todos os homens – essa vontade de prevalecer sobre os outros para nos sentirmos mais importantes, defendendo, uma vez atingido o objectivo, o nosso posto como algo intransferível.
É preciso dizer que a fraternidade não consiste apenas em sentir-me irmão de todos os homens – isto são palavras que o vento leva – não se trata apenas do que eu porventura possa pensar da fraternidade, mas o que pensam os outros de mim. Dito de outra maneira, é preciso que os outros possam ver em mim um irmão. Não se trata de dar discursos sobre o amor e a paz universal ou sobre o perigo das riquezas, mas de viver de tal maneira que ninguém se sinta humilhado, maltratado, desprezado ou até pisado por mim.

É uma grande tentação para todos, sermos nós a estabelecer a medida e as regras (sobretudo para que sejam a nosso favor, claro!), mas, para criar a autêntica fraternidade, a medida deve ser posta pelos outros e o seu sofrimento é o termómetro que nos alerta sobre a nossa realidade.

Jesus entrou no mundo por baixo, desde a debilidade mais absoluta e, curiosamente, o seu próprio nascimento engloba a todos, de tal modo que todas as pessoas estão por ele incorporadas. Se Jesus tivesse nascido num palácio, filho de grandes senhores, com uma multidão de criados e médicos à volta, certamente os pobres não estariam também englobados. Todavia não foi assim, as miseráveis condições do seu nascimento originaram que os pobres vizinhos se compadecessem daquele casal, numa situação de aflição. Desde a sua pobreza despoletou o que de melhor tem o coração humano: a solidariedade na desgraça.

Só a simplicidade origina a fraternidade: não que eu me sinta irmão, repito, mas que o outro me possa sentir e reconhecer como irmão.

Isto tem tanto de simples como de difícil porque ninguém gosta de estar nos últimos postos, expostos e desarmados, vivendo desde a verdade e disponibilidade radical. As bem-aventuranças são assim caminho para todos, e um convite a aceitar o outro como Filho de Deus, igual a mim em dignidade, sem olhar à sua condição social e dando preferência aos pobres, aos que choram, aos que sofrem e aos perseguidos.

Este desejo de liberdade e fraternidade, que as Bem-aventuranças são a fonte, é para viver, na medida do possível, na nossa vida concreta, mas terá a concretização mais plena na ressurreição – o acontecimento principal onde se apoia a construção do crente – como diz S. Paulo:
se a nossa esperança em Cristo acaba nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.

O Cristão é alguém que confia em Deus e não aceita que a morte corte este vínculo vital.