Domingo V do Tempo Comum
C
«Mas,
já que o dizes lançarei as redes»

O homem hodierno
vive para satisfazer imediatamente os desejos e caprichos que vão
surgindo cada dia e só se compromete com alguma coisa quando ela é
realmente do seu interesse. Mas, para que isso aconteça, ela tem de
ser provisória, simplesmente para que não o incomode ou aborreça
durante muito tempo.
As pessoas
perderam a capacidade de assumir as suas frustrações e o esforço
que implica entregar-se a um ideal. O princípio do prazer, do
mínimo esforço, do provisório das suas opções, do princípio da
competição em relação aos outros – a quem é necessário ultrapassar
se isso lhe proporciona vantagens, vivendo de olhos fechados
perante o sofrimento e a injustiça que o interpelam e questionam as
suas formas de vida – parece ser a tónica do seu comportamento
social aburguesado.
Talvez pense já
ter feito muito! Agora, diremos nós, é a vez dos outros fazerem
alguma coisa. Mas, temos de ser razoáveis, há sempre a hipótese de
ainda não termos encontrado o verdadeiro sentido daquilo que é ser
um cristão, empenhado e comprometido. É claro que não podemos ser
cristãos comprometidos se não encontrarmos, em primeiro lugar, o
valor da vida humana, a alegria de viver por um ideal em função do
outro, uma causa nobre, como um dom de Deus, que dê sentido ao
nosso trabalho. Certamente, também não podemos ser cristãos
empenhados se desconhecermos a riqueza da mensagem cristã, o seu
valor irrefutável, na certeza de que tudo o que se realizou em
Cristo, como a sua ressurreição, nos está prometido e reservado,
como filhos muito amados de Deus. Poderíamos também acrescentar que
não seremos verdadeiros cristãos se não tivermos consciência e
certeza de pertencer a uma Igreja, como comunhão de pessoas que,
sob a acção do Espírito Santo, continuam a ser a presença visível
de Cristo na terra, unidas por um único ideal, o amor a Deus e aos
irmãos, portadores de uma mensagem de paz para todos os
irmãos.
Devemos, além
disso, perguntarmo-nos se o nosso trabalho, por mais simples que
seja, se enquadra na visão evangélica das coisas. Temos que nos
questionar, entre outras coisas, se é consequência de nos deixarmos
fascinar por Cristo, tal como Pedro, Isaías e Paulo, porque essa é
a raiz de toda a actividade Cristã. O resto pode ser activismo,
mera busca da própria satisfação ou exibicionismo: um pescar de
homens não pelo Reino de Deus, mas por nós próprios e pela nossa
satisfação. Só alimentando essa chama, ou fascínio interior,
poderemos sair ao encontro dos outros, como Paulo, levando o
anúncio da ressurreição.
Perguntareis:
como pode ser isso? Somos débeis e os nossos limites impedem-nos de
servir ao Senhor!
Poder-se-á
afirmar que não há nenhum discípulo de Cristo que não tenha
colocado esta questão. E o Evangelho que escutamos, que nos fala da
vocação de Pedro, é disso uma prova evidente: Senhor, afasta-te de
mim, que sou um homem pecador. Também Isaías já o tinha proferido:
Ai de mim, que estou perdido, porque sou um homem de lábios
impuros…
Tal como Isaías,
Pedro, Paulo e muitos outros, também nós experimentamos essa
fraqueza diante do Senhor, achamos que somos ignorantes e até
indignos de anunciar o Evangelho. No entanto, uma certeza temos que
ter sempre, o Evangelho não é obra nossa, é de Cristo, por isso
quem transmite é sempre o Senhor que se serve de nós para ser, onde
me encontro, presença e testemunho de Cristo.
Na verdade, o
conceito de missão dos dias de hoje é muito diferente de alguns
anos atrás: Quando se fala de missão, pensa-se facilmente nas
terras longínquas, nos povos chamados “subdesenvolvidos”...
Pensa-se nos que, com sacrifício, põem em perigo as suas vidas para
anunciar o evangelho a quem ainda o não conhece. Na verdade, tudo
isto é missão. Existem, no entanto, dois perigos: primeiro, pensar
que evangelizar é apenas ir por esse mundo fora anunciar o
Evangelho. Porém, o conceito de missão é hoje muito diferente
porque somos nós e a nossa sociedade que precisa de ser
evangelizada. Se nos dermos conta, há lugares da nossa sociedade
onde os teóricos missionários não podem chegar: os locais de
trabalho e de lazer, onde o ambiente nem sempre é propício para as
relações fraternas; a família, onde as desavenças e incompreensões
marcam o ritmo familiar; os locais de comércio, marcados pelo
consumismo e individualismo. Aí os leigos têm um papel
preponderante porque eles, mais que ninguém, devem, pelo
comportamento e maneira de estar, dar o seu testemunho cristão. O
segundo perigo consiste em pensar que isso se dirige e outros e não
a mim, iludindo a minha responsabilidade no que diz respeito a um
chamamento, que me convida a ser em Cristo e de Cristo e provoca a
resposta coerente da minha vida. É que todo o cristão é missionário
por natureza. A iniciativa é sempre de Deus. E em Jesus me foi dado
o exemplo.
Nada se faz sem
uma experiência da palavra. Na página evangélica, podemos
distinguir três quadros e um único tema: a força da palavra.
Primeiro, vemos Cristo que anuncia a palavra à multidão desde a
barca. Segundo, Cristo convida a tentar novamente, apesar da pesca
infrutuosa da noite anterior, confiando na palavra. Terceiro, Jesus
faz de Pedro um pescador de homens, anunciador do
Evangelho.
Tal como na
passagem evangélica, a fé depositada na palavra é recompensada
abundantemente. Mas atenção, o resultado só aparece quando Pedro
confia nessa palavra: por tua palavra, deitarei as redes. Aqui está
o milagre: o facto de deitar as redes confiando na palavra! O facto
de ter confiado na palavra muda-lhe a missão: serás pescador de
homens. No entanto, só depois da ressurreição,
compreenderá...
O mesmo é pedido
aos cristãos. Mas, com tão pouca formação, anunciar o quê?Trata-se
de comunicar uma vida, testemunhar uma experiência! A experiência
concreta que cada um faz de Cristo e da sua Ressurreição. Este foi
o grande anúncio dos primeiros discípulos e das primeiras
comunidades. Foi este acontecimento que mudou os destinos dos
Apóstolos e é também este acontecimento e este anúncio que dá razão
de ser à nossa vida de cristãos e que faz de nós “pescadores de
homens”. Serei digno!? O Senhor, quando pretende enviar alguém, não
examina as suas virtudes (se assim fosse, ninguém seria enviado),
mas pede apenas uma coisa: disponibilidade!