Domingo IV do Tempo Comum
C
«Em
verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua
terra»
Encontramo-nos
ainda na sinagoga de Nazaré, na qual Jesus, durante a liturgia de
sábado, leu a profecia de Isaías sobre o profeta-servo que Deus
enviou para “anunciar a boa nova aos pobres, a proclamar a redenção
aos cativos e vista aos cegos, a restituir a liberdade aos
oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor” (cf. Is 61, 1-2).
Jesus, comentado esta profecia, disse aos habitantes de Nazaré que
ali se encontravam que aquelas palavras se realizavam nele.
Mas esta breve “homilia” provoca admiração naqueles que o escutam,
pois sentem que as suas palavras são intrigantes e cheias de graça.
Recordando a juventude que Jesus passou em Nazaré com a sua
família, perguntavam: “Não é este o filho de José, o carpinteiro?”.
Mas esta admiração que nutriam pela suas palavras não corresponde,
na verdade, a uma verdadeira escuta de Jesus e à fé que deviam ter
nele. Deste modo, Jesus, a partir deste seu primeiro acto público,
revela-se como “sinal de contradição” (Lc 2, 34), tal como o velho
Simeão tinha profetizado, quarenta dias depois do seu nascimento,
quando foi apresentado no templo.
Jesus dá-se conta da recusa da sua identidade que lhes tinha sido
anunciada como realização pontual das palavras proféticas de
Isaías. Mas porque não se limita às impressões superficiais dos
homens, mas conhece os pensamentos que estão nos seus corações (cf.
Jo 2, 24-25), denuncia as intenções dos seus interlocutores: “Por
certo me citareis o ditado: ‘médico, cura-te a ti mesmo’. Faz
também aqui na terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”
e então conheceremos bem quem tu és. Eis a revelação dos
pensamentos dos homens, eis a recusa de Jesus, na sua própria
cidade, entre os seus, na sua própria casa (cf. Jo 1, 11)!
Jesus, contudo, pronuncia palavras que revelam uma outra realização
naquele mesmo dia: “Nenhum profeta é bem recebido na sua terra”.
Jesus não esmorece perante essa desilusão, porque a recusa dos
nazarenos não era mais que a confirmação da sua identidade: Ele é
verdadeiramente um profeta e, como tal, terá de suportar a recusa
dos seus irmãos na fé. Em Jesus concretiza-se de modo definitivo o
que o Senhor tinha anunciado a Jeremias (primeira leitura): “Eles
combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque eu estou
contigo para te salvar”. Por isso, Jesus recorda aos seus
concidadãos e aos seus familiares que nada de novo tinha acontecido
na sinagoga de Nazaré; aliás, renova-se apenas o que já tinha
acontecido com todos os profetas. Aconteceu com Elias, sustentado e
escutado apenas por uma viúva estrangeira, uma mulher fenícia de
Sarepta, na região da Sidónia (cf. 1Re 17); aconteceu com Eliseu, o
sucessor de Elias, que curou apenas um homem pagão, Naamã (cf. 2Re
5). Sim, é verdade que os profetas não encontraram acolhimento nos
crentes de Israel, como seria de esperar, mas entre os pagãos:
normalmente aqueles que se dizem crentes estão de tal modo
satisfeitos e seguros que se recusam a acolher as novas palavras e
acções, não esperadas e previstas, por parte de Deus e dos seus
profetas...
Mas estas palavras de Jesus enfurecem ainda mais os presentes.
Tinham-se reunido na sinagoga para o culto semanal, para escutar a
Palavra de Deus, mas diante desta palavra que se faz carne em Jesus
(cf. Jo 1, 14) não acreditam. Além disso, chegam mesmo a desejar a
morte de Jesus, a fim de o precipitarem do cimo de uma colina.
Jesus não reage perante a violência colectiva que se desencadeia à
sua volta, mas “ passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”,
realizando-se novamente o que nos é anunciado pelo profeta
Jeremias: “Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações…
não temas diante dele”.
Acontecia no Antigo Testamento, aconteceu a Jesus, aconteceu e
acontece no interior das igrejas: os profetas enviados por Deus são
mais escutados pelos de fora do que pelos próprios irmãos, são
acolhidos mais facilmente pelos não crentes, pelos que consideramos
“pecadores” do que por aqueles que se julgam justos e bons. E nós?
Nós que estamos a ler esta página, estamos dispostos a não nos
escandalizarmos com as palavras sinceras de Jesus?