Domingo III do Tempo Comum
C
«Cumpriu-se hoje
mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» (Lc 4,
21)
O
Salmo 18 é um hino maravilhoso que celebra a Sabedoria de Deus, que
ordena e rege o universo, dirige e vivifica o espírito e o coração
do homem. A segunda parte do hino, da qual faz parte o salmo
responsorial deste domingo, é um texto didáctico sobre a lei. O
autor tece um elogio da lei divina: ela é perfeita, resplandecente
e eterna; reconforta a alma e dá sabedoria aos simples. A lei
fundamental da aliança, o decálogo, é intitulada na Bíblia como “as
dez palavras” (Es 34,28; Dt 4,13; 10,4). Ao homem que procura o
porquê do mundo, da vida, Deus oferece a sua Palavra, que é Palavra
viva, segura, resposta para a nossa existência; Palavra que se fez
carne, um de nós, Jesus o nosso salvador. Em Cristo Jesus a lei
concretizou-se de uma vez por todas (cf. Mt 5, 17). Por isso para o
cristão a observância da lei concretiza-se numa relação pessoal de
amor com Cristo.
Nas três leituras deste domingo, repete-se continuamente o tema da
lei/palavra de Deus. É uma lei feita de preceitos, como a que nos é
apresentada por Esdras aos repatriados do exílio da Babilónia
(primeira leitura). É uma lei interior, como a vida dentro do
corpo, pela qual os membros realizam a sua missão, segundo a
descrição de S. Paulo aos cristãos de Corinto (Segunda leitura). E,
segundo as palavras de Jesus na sinagoga de Nazaré (Evangelho),
esta lei é o Espírito Santo que está sobre nós, pelo qual somos
enviados a anunciar a boa nova aos pobres. As três leituras
bíblicas transmitem-nos a ideia de uma lei/palavra que se vai
interiorizando lentamente, até se tornar um espírito que se
compenetra com a nossa maneira de ser, segundo as palavras de
Jesus: “O Espírito de Senhor está sobre mim”.
O Catecismo da Igreja Católica (nº 108) afirma, citando S. Bernardo
de Claraval, que o “cristianismo é a religião da palavra de Deus,
não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo incarnado e
vivente”. O Deus da Bíblia, ao contrário dos ídolos dos pagãos, não
é um Deus mudo. É um Deus vivo, que fala ao homem de muitas
maneiras. É sobretudo em Cristo que a Palavra de Deus assume um
corpo e se dirige ao homem, e da escritura se torna pessoa. Todas
as palavras da Bíblia nos falam de Cristo, como profecia ou como
acontecimento. A isso se refere S. Jerónimo quando diz: “ignorar as
Escrituras é ignorar a Cristo”. Escutámos as palavras de Jesus na
sinagoga, o qual, depois de ter lido uma passagem do profeta
Isaías, dirige-se aos presentes com esta solene afirmação:
“Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de
ouvir”. Com a mesma clareza, Jesus, na tarde da sua ressurreição,
aparece e diz aos seus apóstolos: “Era preciso que se cumprisse
tudo o que está escrito na Lei de Moisés, nos profetas e nos
Salmos” (Lc 24, 44). Em Cristo todas as promessas de Deus tornam-se
um “sim” (cf. 2Cor 1,20).
Na palavra de Deus que nos é proclamada em cada domingo na
assembleia eucarística é o próprio Cristo que nos fala, revela-se e
nos interpela. Ele continua a anunciar a boa nova da salvação. Por
isso a escuta e o acolhimento da Palavra é sempre uma experiência
alegre do hoje da salvação. A nossa cultura perdeu, talvez, o
sentido e o valor da palavra e, consequentemente, da palavra de
Deus. Talvez pensemos um pouco como o imperador Marco Aurélio que
dizia: “a linguagem serve para esconder o pensamento dos homens”.
As nossas palavras estão, frequentemente, carregadas de vazio e são
incoerentes com a vida. A palavra de Jesus é, pelo contrário, como
ele disse, “Espírito e vida” (Jo 6, 63).