Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

Domingo II do Tempo Comum C
«Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele»

Nozze-di-Cana


O Salmo responsorial deste domingo convida-nos a cantar ao Senhor “um cântico novo”: “novo” na linguagem bíblica pode significar “perfeito”, “pleno”, “definitivo”. Trata-se, portanto, de celebrar o projecto perfeito que Deus traçou para a história do homem e para todo o universo. Trata-se de um projecto de salvação universal: “ dizei entre as nações: «o Senhor é Rei»”. A Igreja coloca este salmo na liturgia deste domingo, na qual Jesus oferece com abundância o vinho novo, símbolo dos tempos messiânicos.

A passagem do Evangelho de hoje narra o primeiro milagre realizado por Jesus. Ele encontra-se com a sua Mãe e os seus discípulos numa festa de casamento em Caná da Galileia. Tendo acabado o vinho, Jesus transforma seis talhas de água em vinho. O que parece interessar a S. João, que nos relata o facto, é que com este primeiro milagre “Jesus manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram nele”. Este prodígio, como todos os outros milagres de Jesus, são chamados por S. João “sinais”, porque demonstram que Jesus é o Filho de Deus, o Messias esperado. Com Jesus chegamos à “hora” esperada e anunciada pelos profetas: nele Deus manifesta a sua glória, afirma o Evangelista, fazendo eco das palavras do profeta Isaías, propostas na primeira leitura: “Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis a tua glória”. Segundo o quarto Evangelho a glória escondida em Deus manifestou-se entre os homens através de Cristo (cf. Jo 1,14; 11,4.40) que é reconhecível através da fé (cf. Jo 2, 11). O dom da fé ajuda os discípulos a ver no “sinal” operado por Jesus em Caná a presença de Deus que salva. O gesto realizado por Jesus no casamento de Caná é, portanto, uma “epifania” messiânica, isto é, uma manifestação daquilo que Ele é e da sua missão salvífica, como o baptismo no Jordão que celebramos no domingo passado.

No Antigo Testamento a felicidade prometida por Deus aos que nele acreditavam é expressa frequentemente sob a forma de uma grande abundância de vinho, como se vê nos oráculos de consolação dos profetas. Jesus, com o milagre da água transformada em vinho, demonstra que iniciou a era messiânica na qual Deus comunica a abundância dos seus bens. O momento culminante desta era messiânica será a morte e a ressurreição de Cristo, o mistério da sua Páscoa. Jesus refere-se a esta fase culminante da sua obra quando diz a Maria sua mãe: “Ainda não chegou a minha hora” (cf. Jo 7,30; 8,20; 12,23.27; 13,1; 17,1). Em todo o caso, o vinho novo que ele fornece miraculosamente emCaná é já um sinal do dom completo da sua redenção oferecida na cruz e perenemente presente no sacrifício do altar: o vinho distribuído com abundância é sinal do sangue que sai do lado de Jesus na cruz, sangue da nova e eterna aliança, derramado por nós e por todos em remissão dos pecados.

A salvação esperada pelos profetas e inaugurada por Cristo está sempre presente no nosso meio. Na segunda leitura, São Paulo recorda-nos que esta salvação manifesta- se no esplendor dos dons pessoais (os “carismas”) infundidos por Deus em todos os membros da comunidade cristã. Dado que os múltiplos dons provêm de um mesmo Espírito, devem ser confrontados com os dons dos outros na procura de uma comunhão e é nesta complementaridade que a salvação é abundante, porque consolida-se na vida dos homens e manifesta-se como paz que provém de Deus (cf. Oração Colecta).