Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

Domingo XI do Tempo Comum C
«A tua fé te salvou. Vai em paz.»

b.184.184.16777215.0.stories.priore.evangelodelladomenica.img_4788_peccatrice_perdona


Quando o romance de Dostoevskij se tornou um dos títulos mais conhecidos, “crime e castigo” transformou-se no binómio que sustenta a interpretação de alguns acerca de Deus e que domina a visão da história de muitos outros. Contudo, apesar de o encontrarmos na Bíblia, o fio condutor que percorre a Sagrada Escritura combate essa ideia e orienta-nos para um binómio consideravelmente diferente: “Crime e Perdão”. A Liturgia da Palavra deste XI Domingo do Tempo Comum orienta-nos, precisamente, para esta realidade.

Na primeira leitura somos confrontados com o famoso quadro do Rei David (2Sm 12, 7-10.13). Tendo vindo a saber do crime cometido pelo rei, o profeta Natã, amigo da família, vai ter com ele e, fingindo não saber nada do que tinha acontecido, começa a contar a história da
ovelhinha (2Sm 12, 1-6). David segue com muita atenção o relato e, no fim, indignado contra aquela pessoa que roubou e matou a ovelha do vizinho, sentencia: «Aquele homem merece a morte!». Natã levanta o dedo, aponta-o a David e exclama: Tu és aquele homem! Depois enumera enumera os benefícios que Deus lhe concedeu e lembra a David a sua ingratidão. Por fim, anuncia o castigo terrível que atingirá a sua família. O profeta prevê que na família de David nunca mais terminarão os ódios, as lutas, as violências, o sangue derramado. Deus, porém, nunca abandona o homem. Esta é a razão pela qual, depois de ter falado de desventura, Natã conclui a sua profecia com um anúncio de esperança: «O Senhor perdoou o teu pecado, não morrerás». Esta é sempre a última palavra de Deus: o perdão.

No Evangelho, Lucas apresenta-nos Jesus sentado à mesa. Hoje, encontramo-lo em casa de um fariseu, num ambiente moralmente elevado. Ali só entram pessoas de comprovada honestidade e de costume angélicos. De repente, entra na sala uma mulher, «uma pecadora que vivia na cidade». «Pôs-se atrás de Jesus e, chorando muito, banhava-lhe os pés com as lágrimas e enxugava-lhos com os cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume». Perante o seu comportamento, Jesus anuncia-lhe uma santidade diferente daquela que os fariseus pregavam. Mostra-lhes que quem errou, quem não se pode vangloriar de uma “justiça” própria, está, paradoxalmente, numa posição privilegiada: pode entender ainda antes dos “perfeitos” que a “justiça” não é uma conquista do homem, mas um dom gratuito de Deus. Para poder abrir o coração sem medida, é necessário deixar-se libertar da ansiedade, da tensão de ter a todo o custo que merecer, que executar gestos, que satisfazer preceitos. Quem não se converter deste pecado, será incapaz de amar e de se alegrar.

“Pecado e Perdão” é, portanto, o ritmo seguido por Deus quando encontra um coração sincero e arrependido. O escritor francês F. Mauriac declarava que «entre o Cordeiro de Deus e a miséria humana não existe nenhum abismo que a misericórdia de Deus não possa colmatar». Deus é perdão e revela-se perdoando; se assim não fosse, os homem depressa deixariam de existir, entregues às inexoráveis exigências da justiça divina. É «feliz aquele a quem foi perdoada a culpa e absolvido o pecado» e, portanto, como o salmista, não há ninguém que não precise de pedir: «Perdoai, Senhor, minha culpa e meu pecado» (cf. Salmo Responsorial).