Domingo XI do Tempo Comum
C
«A
tua fé te salvou. Vai em paz.»

Quando o romance de Dostoevskij se tornou um dos títulos mais
conhecidos, “crime e castigo” transformou-se no binómio que
sustenta a interpretação de alguns acerca de Deus e que domina a
visão da história de muitos outros. Contudo, apesar de o
encontrarmos na Bíblia, o fio condutor que percorre a Sagrada
Escritura combate essa ideia e orienta-nos para um binómio
consideravelmente diferente: “Crime e Perdão”. A Liturgia da
Palavra deste XI Domingo do Tempo Comum orienta-nos, precisamente,
para esta realidade.
Na primeira leitura somos confrontados com o famoso quadro do Rei
David (2Sm 12, 7-10.13). Tendo vindo a saber do crime cometido pelo
rei, o profeta Natã, amigo da família, vai ter com ele e, fingindo
não saber nada do que tinha acontecido, começa a contar a história
da ovelhinha
(2Sm 12, 1-6). David segue com muita
atenção o relato e, no fim, indignado contra aquela pessoa que
roubou e matou a ovelha do vizinho, sentencia: «Aquele homem merece
a morte!». Natã levanta o dedo, aponta-o a David e exclama:
Tu és aquele homem!
Depois enumera enumera os benefícios
que Deus lhe concedeu e lembra a David a sua ingratidão. Por fim,
anuncia o castigo terrível que atingirá a sua família. O profeta
prevê que na família de David nunca mais terminarão os ódios, as
lutas, as violências, o sangue derramado. Deus, porém, nunca
abandona o homem. Esta é a razão pela qual, depois de ter falado de
desventura, Natã conclui a sua profecia com um anúncio de
esperança: «O Senhor perdoou o teu pecado, não morrerás». Esta é
sempre a última palavra de Deus: o perdão.
No Evangelho, Lucas apresenta-nos Jesus sentado à mesa. Hoje,
encontramo-lo em casa de um fariseu, num ambiente moralmente
elevado. Ali só entram pessoas de comprovada honestidade e de
costume angélicos. De repente, entra na sala uma mulher, «uma
pecadora que vivia na cidade». «Pôs-se atrás de Jesus e, chorando
muito, banhava-lhe os pés com as lágrimas e enxugava-lhos com os
cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume». Perante o seu
comportamento, Jesus anuncia-lhe uma santidade diferente daquela
que os fariseus pregavam. Mostra-lhes que quem errou, quem não se
pode vangloriar de uma “justiça” própria, está, paradoxalmente,
numa posição privilegiada: pode entender ainda antes dos
“perfeitos” que a “justiça” não é uma conquista do homem, mas um
dom gratuito de Deus. Para poder abrir o coração sem medida, é
necessário deixar-se libertar da ansiedade, da tensão de ter a todo
o custo que merecer, que executar gestos, que satisfazer preceitos.
Quem não se converter deste pecado, será incapaz de amar e de se
alegrar.
“Pecado e Perdão” é, portanto, o ritmo seguido por Deus quando
encontra um coração sincero e arrependido. O escritor francês F.
Mauriac declarava que «entre o Cordeiro de Deus e a miséria humana
não existe nenhum abismo que a misericórdia de Deus não possa
colmatar». Deus é perdão e revela-se perdoando; se assim não fosse,
os homem depressa deixariam de existir, entregues às inexoráveis
exigências da justiça divina. É «feliz aquele a quem foi perdoada a
culpa e absolvido o pecado» e, portanto, como o salmista, não há
ninguém que não precise de pedir: «Perdoai, Senhor, minha culpa e
meu pecado» (cf. Salmo Responsorial).