Domingo X do Tempo Comum
C
«Apareceu
no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo.»

A vida
é o dom e o bem mais precioso para cada pessoa. A liturgia da
palavra que nos é proposta neste domingo chama-nos a atenção para
esta realidade. No evangelho, Jesus dá a vida ao filho da viúva de
Naim, um acontecimento da vida de Jesus que é antecipado
profeticamente por um acontecimento muito semelhante, aquele que
nos é proposto na primeira leitura (1Re 17,17-24), a celebração da
vida do filho da viúva de Sarepta.
Os dois episódios estão estritamente ligados entre si, através do
método tipológico, o critério adoptado pela reforma do leccionário
proposto pelo Concílio Vaticano II e que tem o seu modelo nas
homilias dos antigos padres da igreja, nas quais, interpretando as
escrituras, estabeleciam a ligação entre os Testamentos e garantiam
o valor ontológico dos acontecimentos: O Antigo testamento é sempre
anúncio profético, prefiguração e antecipação do evento sacramental
de Cristo, da sua encarnação, da sua vida entre os homens, bem como
da sua morte e ressurreição.
Se neste ano C somos conduzidos pela leitura semi-contínua do
Evangelho de Lucas (“semi-contínua” porque escutamos apenas aqueles
acontecimentos considerados mais importantes para a formação dos
fiéis), a primeira leitura (normalmente do Antigo Testamento,
sobretudo no tempo comum que hoje retomamos) não obedece a nenhum
critério de leitura contínua da bíblia, mas é escolhida de acordo
com o acontecimento narrado no evangelho, de acordo com o método
tipológico referido.
Esta leitura tipológica da Sagrada Escritura transparece hoje
claramente na relação ontológica existente entre a primeira leitura
e no evangelho que escutámos: Os mortos são dois rapazes e as
respectivas mães são viúvas. Trata-se da dor mais angustiante
porque as duas viúvas são as criaturas que na sociedade hebraica
estão colocadas no último patamar da escala social (viúvas e
órfãos), postas à prova por uma dor sem igual: a perda de um filho
único. A resposta de Elias e de Jesus têm também a mesma fisionomia
(ressurreição do filho), mas possuem uma identidade diferente, que
se desvela nas exclamações conclusivas nos respectivos textos. Na
primeira leitura a viúva exclama: «agora vejo que és um homem de
Deus e que se encontra verdadeiramente nos teus lábios a palavra do
Senhor»; e no evangelho os que presenciaram o milagre confirmam a
diferença: «Apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou
o seu povo». As duas exclamações ajudam-nos a concluir o seguinte:
Elias é reconhecido como profeta, porque realiza obras de Deus,
Jesus é chamado de “grande profeta” (porque conheciam as obras de
Elias e portanto atribuem-lhe o mesmo nome), mas é mais do que
profeta, é o messias, é a «visita de Deus», é a presença de Deus
entre os homens ou, melhor ainda, é Deus.
O método tipológico é importante nesta relação porque estabelece
uma relação entre os acontecimentos do Antigo Testamento e os do
Novo Testamento, mas salvaguarda as diferenças. De acordo com este
método Jesus será chamado o “novo Elias”, o protagonista da
primeira leitura (como também será chamado de “novo Moisés”, “novo
Adão”, “novo Abraão”, “novo Isaac”), mas as diferenças serão sempre
respeitadas: Jesus é mais do que Moisés, mais do que Elias e mais
do que Adão. Porque as personagens e os acontecimentos do Antigo
Testamento serão sempre prefiguração e anúncio de Cristo, no qual
se realizam todas essas prefigurações, porque Ele é o “Deus”
anunciado pelo Antigo Testamento, Ele é o messias, a realização de
todas as personagens e acontecimentos do Antigo Testamento.
A incarnação de Cristo é a “visita” de Deus à humanidade. O milagre
da ressurreição do filho da viúva de Naim é a sua síntese mais
concreta. Deus visita o seu povo para que o homem tenha a vida e
para consolação de quem é escravo do mal. Tudo parte da “compaixão”
de Jesus para com a viúva, posta à prova pela morte do marido e
pela morte do filho. A mulher é circundada pela morte, como Adão e
Eva depois do pecado. A “compaixão” de Deus restitui a vida ao
filho da viúva para que ela se sinta feliz. Deus sabe consolar os
corações aflitos e sabe mudar as lágrimas em alegria (Cf. Ap
21,4).
Naim representa, portanto, o encontro de duas multidões (dois
grupos). Por um lado, os “discípulos e uma grande multidão”
acompanham Jesus, por outro, a viúva era acompanhada de “muita
gente da cidade” que participava do funeral. O primeiro grupo segue
Jesus porque já tinha descoberto o seu amor pelos homens (Tito 3,4)
e o reconhecia como Salvador, o segundo grupo segue a maldição da
primeira Aliança, que Deus tinha comunicado a Adão como
consequência da desobediência: «lembra-te que és pó e ao pós hás-de
tornar» (Gen 3, 19). No entanto, as duas multidões serão
testemunhas da “compaixão” de e do seu poder.
A reacção das duas multidões (de todos) é o temor e a glorificação.
Recordamos que no contexto bíblico o “temor” não é o medo, mas o
amor obediente para com Deus. A glorificação não é só o louvor, mas
também o testemunho alegre daquilo que Deus fez. As duas multidões
não evidenciam o milagre, mas através do milagre evidenciam a
presença de Deus no meio dos homens. O homem, portanto, não é um
grão de areia à deriva no universo. O homem é a criatura que Deus
“visita” com amor compassivo.