«De ti,
Belém-Efratá, pequena entre as cidades de Judá,
de ti sairá aquele que há-de reinar sobre
Israel»
(I
leitura - Miq 5, 1)

O
Natal já ilumina a liturgia da palavra deste último domingo do
Advento. No centro, de facto, apresentam-se as duas figuras
fundamentais do grande acontecimento de salvação que está para
chegar: Cristo e Maria. “Aquela que há-de ser mãe” e aquele que
“será exaltado até aos confins da terra” apresentados pelo profeta
Miqueias, aparecem de modo particular no cântico de Isabel que hoje
nos é oferecido no Evangelho (Lc 1, 39-45), um trecho do “Evangelho
da infância” que nos é fornecido por S. Lucas. Ora, deste
“Evangelho da infância” extraíram-se alguns hinos que entraram
triunfalmente na liturgia da Igreja dos séculos sucessivos: o
“Magnificat”, o “Benedictus”, o “Glória in excelsis” e o “Nunc
dimittis”. As palavras de Isabel não são propriamente um cântico
mas contêm o fragmento de um hino constituído por uma bênção e uma
bem-aventurança: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o
fruto do teu ventre». Trata-se de um verso, muito intenso, que se
insere na mais célebre oração mariana: Avé Maria.
A oração de Isabel que hoje nos é proposta - a primeira oração
mariana que ressoou sobre a face da terra - caracteriza também a
liturgia oriental e a liturgia ambrosiana deste último domingo que
antecede o Natal. A última estrofe do hino é constituída por uma
bênção, um conceito que na Bíblia e no antigo oriente estava
sobretudo ligado à fecundidade. Escreve um estudioso alemão, H. W.
Beyer: «Cada mulher de Israel via na bênção do próprio corpo um
sinal vivo e activo da graça operante de Deus; tanto mais que a mãe
do messias é a bendita entre as mulheres, a “bendita” em absoluto».
De facto, se a bênção é sinal da presença eficaz de Deus numa
pessoa, em Maria esta presença é suprema. À luz da maternidade
divina de Maria nós pomos hoje diante do nosso horizonte cada
maternidade humana, sinal grandioso da vida que Deus infunde no
mundo e na história. Um antigo provérbio berbere usa esta
extraordinária imagem: «Se uma mulher traz no ventre um filho, o
seu corpo é como uma tenda quando no deserto sopra o vento quente,
é como um oásis para quem tem sede, é como um templo para quem quer
rezar».
Segue-se uma bem-aventurança, a primeira do Evangelho. Trata-se de
uma fórmula que ressoa frequentemente na bíblia: «Feliz aquele que
teme o Senhor e segue os seus caminhos (Sl 128, 1-2). O conteúdo da
bem-aventurança dirigida a Maria expressa-se no original grego com
um particípio que tem quase a função de uma definição, «a crente».
Maria é “feliz” não apenas porque gera Cristo, como dirá uma mulher
do meio da multidão: «Bem-aventurado o seio que te trouxe!». Mas,
como explicará Jesus, é bem-aventurada porque “ouviu a palavra de
Deus e a pôs em prática» (Lc 11, 27-28). Bênção e bem-aventurança
entrelaçam-se justamente pela fé, como já se dizia no Antigo
Testamento: «Se obedeceres à voz do senhor teu Deus, pondo em
prática todos os seus mandamentos que eu hoje te ordeno… bendito
será o fruto do teu ventre» (Dt 28, 1.4).
O retrato de Maria, “a crente” por excelência, que sobressai do
breve hino de sua prima Isabel, constitui um ponto de referência
dos Evangelhos e da tradição cristã (por exemplo, na encíclica de
João Paulo II,
Redemptoris Mater,
a expressão “aquela que acreditou” repete-se continuamente). Por
isso, os Padres da Igreja compararam Maria não só a Eva, a “mãe de
todos os viventes”, mas também a Abraão, “nosso pai na fé”. A vida
deste patriarca foi uma contínua peregrinação na fé tal como a vida
de Maria, desde a anunciação do Anjo até ao momento supremo da sua
morte, no calvário, a última citação de Maria nos Evangelhos.
Maria está, portanto, presente no nosso itinerário de fé como
companheira de viagem do nosso peregrinar, tanto nos momentos de
sofrimento como nos momentos de alegria. É sugestivo que um dos
modelos mais famosos dos ícones marianos do Oriente é o chamado
de
Odighìtria,
Maria que indica o caminho da fé em Cristo seu filho .