Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

«Água e Espírito»
(Baptismo do Senhor)


Baptismo

Na liturgia o crente encontra-se em face dum mundo infinitamente rico de imagens carregadas de sentido, movimentos, actos, cores, objectos e tempos significativos. O mesmo acontece com os símbolos na liturgia, embora estejam sempre presentes não quer dizer que sejam muitos. Dos que temos, alguns deles (ou quase todos) perderam a sua exuberância e luminosidade característica dos primeiros séculos do cristianismo. O círio pascal é o símbolo por excelência da morte e ressurreição de Cristo, O pão e o vinho estão constantemente presentes. O óleo é um símbolo mas quase não damos conta dele. o altar foi um símbolo, perdeu a sua força, mas voltou a recebê-la durante o movimento litúrgico e confirmada pelo concílio Vaticano II. O Ambão é um símbolo, mas que tarda a reaparecer (se até ao século VIII não havia a menor dúvida, foi-se gradualmente perdendo até ao século XV, altura em que foi completamente posto de parte, na contenda com os protestantes) apesar da Constituição Sacrosanctum Concilium (SC) ter afirmado a presença de Cristo na palavra. Não pretendo falar do Ambão, mas porque celebramos o baptismo do Senhor e este supõe o uso de água, é dela que vou falar. Antes de mais, o que é um símbolo? - O símbolo nasce todas as vezes que o interior, o espiritual, encontra expressão no exterior, no corpóreo.- É símbolo pela sua universalidade, não só no que respeita ao que se vê – a parte sensível – mas também no que respeita ao conteúdo universal que sugere.- É o prolongamento e extensão do corpo e dos seus gestos e ao mesmo tempo extensão dos sentimentos espirituais do crente. Na água facilmente se descobrem estas qualidades necessárias para que a entendamos como símbolo. Ela é rica de mistério. Toda pura e simples, "casta" como lhe chamou S. Francisco de Assis. Sem pretensão alguma, como se nada quisesse significar para si mesma; desinteressada, existe apenas para servir, para purificar e para refrescar. Na sua profundidade é cheia de mistério; é beleza no correr e marulhar da corrente. Pelas suas qualidades purificadoras a água é símbolo de pureza interior. A imersão na água, comum a várias religiões, é símbolo de vida nova e do nascimento de um novo ser, redimido dos seus pecados. Símbolo de vida (é o constituinte mais característico da Terra e é o ingrediente essencial da vida), é também símbolo de morte para o ser o humano (nela não se respira e sem ela não se pode viver). Bastavam estas curtas considerações sobre as propriedades naturais da água para compreendermos aquilo que nos foi ensinado na catequese acerca do baptismo: o baptismo é passagem da morte à vida; pelas sua capacidade para remover (lavar) a imundície, facilmente acreditamos que o baptismo nos purifica do pecado e nos faz novas criaturas. Mas se estas características se aplicam também às outras religiões (Judaísmo, Islamismo, Hinduísmo e Xintoísmo), o que é que define o baptismo cristão, que recebemos quando éramos ainda pequenos? Uma frase de João Baptista que escutámos no Evangelho é muito esclarecedora: «Eu baptizo na água, mas ele baptizar-vos-á no Espírito Santo». 1 - O Baptismo cristão é diferente do baptismo praticado por João Baptista. Com grande entusiasmo, ele propunha um baptismo de penitência. Mas, em última análise, a sua proposta deixava como que uma insatisfação, uma incompletude. «É só isto que podemos esperar, és tu o messias esperado?», perguntavam-lhe os judeus. A coisa mais importante do anúncio de João Baptista é o permanente remeter para um Outro que vai chegar, diferente dele: Depois de mim há-de vir um Outro, a quem eu não sou digno de desatar as correias da sandálias. Eu baptizo-vos em água, mas ele baptizar-vos-á no Espírito Santo», isto é, eu convoco-vos à penitência, mas ele mudar-vos-á por dentro.2 – Jesus recebeu o baptismo de João Baptista, mas o seu método de acção é diferente do de João Baptista. O método de Jesus, que se revela desde o primeiro instante, é o método da Encarnação. Jesus não se apresenta diante da multidão dos pecadores com o contraste de uma justiça impoluta. Jesus começou a sua vida pública pondo-se na fila dos pecadores. Tão paradoxal é este facto que o Evangelho de S. Mateus conta que, quando chegou a vez d'ele, João Baptista terá dito: «mas, Senhor, como é isto possível? Tu é que tens de me baptizar a mim». E Jesus respondeu-lhe: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça». Nós dizemos, como dogma de fé que aprendemos no Catecismo, que Jesus é em tudo igual a nós, excepto no pecado. Mas S. Paulo, que tem uma maneira provocadora de dizer as coisas, diz numa das cartas: «Deus, a Ele que era sem pecado fê-lo pecado por nós». A fórmula é insuportável, mas percebemos o que quer dizer. Sabemos que quer dizer que Jesus tenha pecados pessoais, Ele é santo. Mas quer dizer que Jesus viveu uma vida com tudo aquilo que são as consequências do pecado original Ele mesmo as viveu. É, no fundo, uma maneira de explicar que Jesus foi homem em todos os aspectos e é esta dimensão da Encarnação de Cristo que nos explica porque é que esta festa do Baptismo do Senhor se insere nas festas do Natal.3 – O que significa "baptizar-vos-á no Espírito Santo"? O mandamento de Jesus aos seus discípulos de baptizar «em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (isto é, de acordo com uma forma bem definida) não é apenas sinal de uma tradição litúrgica praticada já no ano 70 depois de Cristo, mas a expressão de tudo aquilo que o «baptismo no nome de Jesus» significava. Este não se qualificava apenas como um mandamento do Senhor, mas porque o Baptismo era o retomar ritual do acontecimento salvífico realizado no próprio Baptismo de Cristo. De facto, para além da investidura messiânica que os exegetas atribuem a este acontecimento, a narração assume um função ilustrativa do rito litúrgico usado pelos apóstolos. Na verdade, o Baptismo «em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» espelha a teofania trinitária do Baptismo de Cristo: a voz do Pai e a descida do Espírito Santo sobre o seu filho. Para a Igreja primitiva o Baptismo de Cristo tem, portanto, uma importância cristológica e messiânica, mas é também decisiva no aspecto sacramental: no Baptismo cristão realiza-se para aquele que o recebe aquilo que aconteceu no Baptismo de Cristo no Jordão; nada mais nada menos como acontece com a "ceia pascal" de Cristo que se actualiza no rito litúrgico da ceia do Senhor. Neste sentido, a água é pois um símbolo sacramental do acontecimento salvífico de Cristo, que se torna operante no crente, não apenas pelas suas propriedades naturais, mas pelo espírito que lhe dá vida. Se pela água o nosso baptismo é imagem do baptismo de Cristo e da sua obra redentora, pelo Espírito a salvação operada e oferecida em Cristo torna-se uma realidade para o crente. Se podemos afirmar que sem espírito não há liturgia, porque é pela acção que as acções salvíficas de Cristo se tornam realidade para aquele que recebe o sacramento, com Tertuliano podemos afirmar que «nunca Cristo sem água», porque ela é o veículo do Espírito pelo qual, através da água, «recebemos a salvação» (cf. Bênção da água baptismal).