II Domingo do Advento
As leituras deste segundo domingo de Advento (C) são muito diferentes entre si, não só pelo seu conteúdo, mas sobretudo pela diversidade dos seus autores e pelo estilo característico de cada um. Apesar disso, todas elas têm um ponto em comum. E é para aí que eu queria chamar a vossa atenção.
A primeira é de um profeta, Baruc. A linguagem do profeta é poética e simbólica, e o seu olhar vê ao longe e aponta para o futuro. Para ele, a Jerusalém do seu tempo, a casa de Israel, não passa de uma mãe "abandonada pelo marido, deixada só, com os filhos desterrados ou desaparecidos, humilhada pela dor e pelo luto". Por isso, anuncia-lhe a boa nova: "Os bosques e todas as árvores aromáticas darão sombra a Israel, por ordem de Deus, porque Deus conduzirá israel na alegria, à luz da sua glória, com a misericór-dia e a justiça que d'Ele procedem".
A terceira leitura, o Evangelho, é de um historiador. Se o profeta tem os olhos voltados para o futuro, o historiador têm-nos voltados para o passado. A linguagem do historiador é rigorosa e precisa nas datas, minuciosa na identificação dos personagens e exacta na descrição dos factos. O historiador investiga o passado e, depois, exara por escrito, o resultado das suas investigações: "No décimo quinto ano do reina-do do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia..., no pontificado de Anás e Caifás, foi dirigida a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto.
Não estranheis que eu classifique de historiador o evangelista S. Lucas. Ele próprio se assume como tal, quando diz:
"Já que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expor-tos por escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo, a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que fostes instruído".
Finalmente, a 2ª leitura é de um Apóstolo. A linguagem do apóstolo é calma e serena. Ele sabe-se enviado, e fala em nome de quem o enviou à comunidade a que preside. A sua preocupação primeira é a comunidade concreta, no aqui e agora da sua existência e do seu crescimento na caridade. Para o apóstolo, o futuro constrói-se no presente e dele depende, e o passado só importa na medida em que é alicerce que estrutura e dá consistência a esse presente. Reparai na linguagem do apóstolo Paulo dirigindo-se aos cristãos de Filipos e, sobretudo, como ele conjuga e relaciona o passado e o futuro com o presente: "Peço sempre com alegria por todos vós, recordando-me da parte que tomastes na causa do Evangelho, desde o primeiro dia até ao presente. Tenho plena confiança de que Aquele que começou em vós tão boa obra há-de levá-la a bom termo até ao dia de Cristo Jesus. Deus é testemunha de que vos amo a todos no Coração de Cristo Jesus. Por isso lhe peço que a vossa caridade cresça cada vez mais em ciência e discerni-mento, para que possais distinguir o que é melhor e vos torneis puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo..."
Três autores diferentes, três leituras diferentes, três estilos diferentes. Será que em tanta diversidade há algum ponto em comum?
Sim, há. E se quisermos resumir numa só palavra esse ponto comum às três leituras e aos três autores, essa palavra será "PRESENTE": presente que é "TEMPO", presente que é "PRESENÇA", presente que é "VINDA", presente que é "ADVENTO", presente que é "SALVAÇÃO" e "NATAL" porque o ETERNO desce ao tempo e confere ao presente valor de eternidade.
Na primeira leitura, o profeta contempla no futuro uma VINDA. Mas essa VINDA apresenta-se-lhe tão gloriosa que ele a considera já presente e capaz de se sobrepor e anular a miséria real do aqui e agora do homem: "Jerusalém, deixa a tua veste de luto e aflição e reveste para sempre a beleza da glória que VEM de Deus. Cobre-te com o manto da justiça que VEM de Deus e coloca sobre a cabeça o diadema da glória do Eterno".
Na visão do profeta, o futuro torna-se presente, porque o eterno invade o tempo, e o presente evapora-se em eternidade.
Acerca do PRESENTE na 2ª leitura do apóstolo S. Paulo e da ênfase que ele coloca ao falar desse pre-sente, já disse o bastante. Resta, pois, o Evangelho de S. Lucas.
Embora S. Lucas se apresente a si mesmo como historiador e investigador consciencioso do passado, a sua finalidade e objectivo não se confina ao passado, como ele mesmo o declara expressamente: "resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expor tudo por escrito e pela sua ordem, a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído".
Quer dizer: Lucas apresenta-se como historiador para testemunhar e garantir a realidade humana e histórica dos personagens que vai apresentar: João Batista e Jesus de Nazaré. A partir daí, o historiador desaparece, a preocupação com o passado também, e fica a testemunha actual e presente duma mensagem actual e presente: "Uma voz clama no deserto: "Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas". E, no decorrer do seu Evangelho, o próprio João Batista será apresentado como aquele que aponta para o presente: "És tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?" E, identificando aquele a quem não é digno sequer de desatar as correias das sandálias, diz: "Eis o Cordeiro de Deus! Eis o que tira o pecado do mundo!"
Disse que o ponto comum às três leituras se podia resumir numa só palavra e que essa palavra era PRESENTE. Vou tentar agora, em poucas palavras, esclarecer melhor essa afirmação.
1 - Presente que é tempo: Não só o presente é tempo, como o presente é o único tempo que o homem tem ao seu dispor e ao seu alcance. O presente é o Hoje do homem; e o hoje do homem é a vida do homem sobre a terra. E é a esse Hoje que o profeta se refere quando diz: "Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações!" E essa voz é aquela que clama no deserto da vida do homem: "Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas!"
2 - Presente que é presença. Já no Antigo testamento - a Moisés - Deus se definiu a Si mesmo como "Aquele que é". Por outras palavras: Deus é o Eterno presente substancial, isto é, em Deus o Ser e o Estar são uma e mesma coisa. Por outro lado, desde o primeiro Adão até ao Adão de nossos dias, que é cada um de nós, o pecado do homem foi sempre a tentativa de se esquivar a essa presença. "Adão, onde estás?" - Tive medo e escondi-me".
3 - Presente que é vinda. Da parte de Deus, não duvido que o presente seja Vinda, se entendermos essa vinda como manifestação, concretização, materialização, temporalização ou encarnação; mas da parte do homem temo que seja uma vinda frustrada. De facto Deus, quer vir e vem ao presente do homem, mas o homem pode estar ausente, relegando essa vinda ou encarnação para o passado da história ou para o futuro de uma escatologia que ele imagina, mas que o não compromete no seu hoje, no seu presente, na sua vida. Se assim fosse - se assim for -, mais uma vez o presente nem será natal, nem será salvação: será simplesmente um natal e uma salvação mais uma vez adiados ou, pior do que isso, um presente, um natal e uma salvação convertidos num tempo carnavaleco feito de distracções e de comezainas, onde Deus continua a não ter lugar - como em Belém - para nascer e entrar no presente, no hoje, na vida do homem.
4 - Finalmente Presente que é advento. Ou o presente, o hoje, a existência, a vida inteira do cristão e da Igreja é um advento permanente, constante e actual, ou o Natal, a encarnação, o dia do Senhor, não acontecerá no cristão e na Igreja. Reduzir o advento a um período do ano, a uma sucessão de quatro semanas de preparação para reviver um acontecimento do passado que não se repete, é, consciente ou inconscientemente, ausentar-se da residência da sua própria existência, isto é, do seu hoje e da sua vida, e alhear-se do mistério daquele que diz: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém me abrir a porta entrarei e cearei com ele".
ADVENTO não é simplesmente uma vinda do Passado. Mas tão pouco será Vinda no Futuro - para mim e para a Igreja - se não for essencialmente e verdadeiramente advento no presente e no hoje da minha vida e na vida da Igreja.
É que Aquele que vem, tanto vem na primeira semana da vida - na infância -, como vem na segunda semana da vida - na juventude -, como vem na terceira semana - na idade adulta - como vem na quarta semana - na velhice. Aquele que vem é o mesmo que está à porta e bate, ansioso que lhe abramos a porta do nosso ser - de criança, de jovem, de adulto ou de idoso - ansioso por aí ter o seu natal, como encontrou aberta, presente e disponível a jovem virgem de Nazaré: "O Anjo entrou onde ela estava..." e ela respondeu ao Anjo: "Eis aqui a escrava do Senhor".
Aquele que vem, é Aquele mesmo que nos ensinou a rezar: "Venha a nós o vosso Reino". Mas é também Aquele mesmo que disse: "O Reino de Deus já está no meio de vós". Aquele que vem (e o Seu reino) está no meio de nós, na fé que professamos e na liturgia que celebramos. Mas é necessário que ele encarne e se materialize no nosso ser, no nosso presente, na nossa vida toda inteira, para que haja verdadeiro natal em cada um de nós. Esse é o projecto de Deus acerca do homem, de todo o homem, desde a infância à velhice, e para toda a Igreja e para a humanidade inteira. Por isso é que a última palavra de toda a Sagrada escritura, como a ecoar pelos tempos fora, para despertar os homens de todos os tempos, é esta: MARANATÁ: vem, Senhor Jesus.