Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

«E sua Mãe disse-lhe: Filho, porque procedeste assim connosco?»
(Sagrada Família)



Hoje celebramos a festa da Sagrada Família dentro do ciclo de Natal. As festas de Natal são a celebração da encarnação de Deus infinito nesta carne finita que somos nós; e se Deus assumiu a nossa condição humana, é impensável imaginá-lo a sobreviver, enquanto criança, sem os cuidados e o amor de seus pais.
No desenvolvimento humano a pessoa que, por qualquer circunstância, não recebe nos primeiros anos de vida o calor de uma família – ainda que seja só da mãe – arrastará em sua vida algumas carências que o impedirão de ser uma pessoa madura, dona de si própria, com capacidade de se entregar ou de se comunicar com os outros, porque carece de uma confiança básica em si mesma e na própria vida.
Além disso, o ser humano é, entre todos os seres vivos, o que nasce mais desprotegido e, por isso, a dependência é maior e muito mais prolongada no tempo. A família cumpre assim uma missão insubstituível: proporciona-nos um desenvolvimento humano e afectivo. No entanto, quando falamos de família, não podemos confundir ou reduzir o assunto, pensando apenas no ambiente cultural em que se nasceu e se vive. De facto, existem muitos modelos familiares nas diversas culturas e têm, além disso, um significado diferente. Dizer: Pai, mãe, irmãos, avós e primos, etc. na nossa cultura ocidental, ou em Portugal, é diferente do conceito familiar da Índia (com o seu sistema de castas), Angola (onde a família abrange também os amigos e benfeitores) e ainda no Japão (com o seu sistema patriarcal e autoritário, com desprezo pelos laços afectivos).
É importante ter isto claro para não se sacralizar o nosso sistema nuclear de família (pai, mãe e 1 ou 2 filhos) e que é apenas uma característica da nossa cultura ocidental, com a sua maneira de entender as relações humanas. Digo isto para que compreendamos que a relação de cada pessoa com a sua família está condicionada pela cultura. Existe, todavia, o perigo de converter a família num ídolo, pensando que o sistema ocidental é o único e definitivo ponto de referência.
Pode parecer estranho falar assim na festa da sagrada família! No entanto, se recorrermos aos evangelhos para indagar a relação de Jesus com a sua família, vemos que por vezes foi uma relação de conflito, em que Jesus teve que afirmar que havia algo de mais importante, acima do que a família esperava dele. Temos, por vezes, uma ideia errada da família de Jesus. A imaginação, a piedade e a espiritualidade influenciaram essa ideia, de tal modo que a projectamos segundo o nosso modelo cultural, ideal, de família e que, de certo modo, se afasta da verdadeira realidade de que nos falam os evangelhos.
Um pequeno repasse pelas atitudes de Jesus para com a sua família talvez nos possa surpreender:
- Quando aos 12/13 anos, Jesus fica no templo (como no Ev. que escutamos) não segue na caravana de regresso a casa, seus pais aflitos, procuram-no e admoestam-no. Jesus aproveita, desde logo, para declarar a sua independência perante eles, explicando-lhes que são mais importantes as coisas de seu Pai, Deus.
- Mais adiante, ao iniciar a sua vida pública, nas bodas de canã, sua mãe tenta persuadi-lo para que resolva a situação e a sua resposta é dura:
Mulher, que tens tu a ver com isto?
- No meio da sua missão, a sua mãe e seus familiares vão buscá-lo porque pensam que está louco (Mc 3, 21) e ele responde que a sua
mãe e seus irmãos são todos aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática.
- Noutra ocasião, que nos relata o Ev de S. João (7, 3-9), a sua família procura indicar-lhe os meios de actuar para se tornar conhecido e Jesus também os despreza.
O que é que tudo isto nos ensina, a nós que somos seguidores de Cristo? Certamente ensina-nos algo que está em contradição com a concepção de família que vive a nossa sociedade.
Se perguntássemos à maior parte da gente o que é mais importante na sua vida, creio que a resposta seria: a família. Se tentássemos perceber a que critérios de valorização correspondem as opções sociais, provavelmente também apareceria a família em primeiro lugar.
A família, tal como hoje se apresenta na nossa sociedade, é o paradigma das relações humanas. Se escutámos as leituras damo-nos conta de que o modelo apresentado pela 1ª leitura é aquele com que mais nos identificamos, o que socialmente parece o mais equilibrado. Esta era também a mentalidade judaica e que Jesus questiona, não por falta de amor aos seus, mas porque vê o perigo de um exclusivismo que privilegie os seus, em detrimento da justiça e do Reino de Deus.
As relações apoiadas pelos laços de sangue, ideias, raça, nação, não pode ser o critério definitivo nas nossas vidas. Acima dos vínculos de sangue existem outros que nos unem a toda a humanidade e devem permitir que a nossa visão do mundo se dirija, acima de tudo, para Deus e para o valor da pessoa humana, sobretudo, os mais desprotegidos

. O mundo familiar não pode ficar reduzido a: eu e os meus como um cerco fechado, mas que se abre a toda a humanidade e relativiza o dogmatismo dos nossos costumes e a forma de entender as relações interpessoais.
A família de Jesus é chamada
sagrada porque nela nasceu, cresceu e tomou consciência da sua missão o salvador do mundo. Em seu seio aprendeu a conhecer a Deus e a ler no seu coração a presença da divindade. Por isso, podemos dizer, que a família composta por Maria e José e Jesus cumpriu o seu papel e passou a segundo plano
Jesus privilegiou a implantação do Reino de Deus – Reino de Justiça e Misericórdia – como último critério e ponto de referência de suas opções. A sagrada família, para ele, foi a humanidade inteira com as suas luzes e sombras. Nesta humanidade ferida onde encarnou para nos anunciar que todos somos irmãos, que ninguém pode reivindicar o direito de supremacia sobre os outros nem explorar a debilidade dos mais pequenos.
Jesus ensinou-nos a dizer
Pai-nosso porque todos somos a sagrada família de Jesus, por este sentimento de pertença que cada cristão leva em si e que o liga a Deus e a todos os irmãos.

1 Só isto explica que um jovem, contra tudo e todos, abandone os seus laços familiares para entregara sua vida ao serviço de Deus e do próximo, uma vida religiosa ou em qualquer instituição de beneficência.
2 Por isso os pais não podem ficar espantados quando num determinado momento se dão conta, dolorosamente, que o seu filho ou filha se desvincula deles, porque deixou de ser criança.