Mosteiro de Singeverga
Monges Beneditinos

Missa da Noite

Um menino Nasceu para nós!

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Esta noite santa é a noite do mistério que favorece a entrada dentro de nós próprios, através da recordação e da memória. A noite de Natal tem tanto de infantil que faz parte da recordação de todo o homem. Por esta dimensão ingénua e desprendida, própria das crianças, a celebração desta noite entra no pensamento humano e instala-se no olhar de todos pelo seu fascínio, pelo seu mistério e pela sua bondade.
Talvez a vida, os acontecimentos, o passar dos anos, nos conduza por outros caminhos, a infância torna-se cada vez mais longínqua e, por isso, também esta noite se distancia de cada um de nós. Não se sabe bem porquê, mas esta noite desperta e provoca a nossa memória. Também as pessoas que não cresceram em ambiente cristão e que, portanto, não têm impressa na sua memória os acontecimentos e os episódios desta noite, experimentam frequentemente uma disponibilidade para sentir, descobrir, para participar dos mistérios que, nós cristãos, celebramos nesta noite. É a noite em que, não se compreende bem, o homem se sente mais bondoso, mais vulnerável, mais atento, mais disponível. Experimentamos que o coração se abre espontaneamente, que o ser humano se torna mais luminoso para si próprio, que se torna presente como uma luz e consegue olhar para si e para os outros de um modo novo.
O profeta Isaías diz-nos na primeira leitura: “porque um menino nos foi dado, um menino nasceu para nós”. Significa que o Verbo de Deus, num momento preciso da nossa história, segundo as coordenadas humanas, se revelou como menino, como Filho. É um facto que não nos deve surpreender. A revelação do nosso Deus não se pode exprimir em sinais estranhos, fora da nossa compreensão. Por isso, quando Deus se revela, este “verbo”, ou “palavra”, torna-se visível. Esta é a revelação que todo o homem e toda a obra criada espera, a revelação do Filho, porque no nascimento de um Deus “menino” se encontra toda a nossa história, todas as nossas expectativas – o reconhecer-se filho naquele que é o Filho absoluto.
Se Ele é a “palavra” de Deus, significa que os traços do Filho transparecem em nós cristãos sempre que vivemos segundo uma inspiração justa, se acolhemos a palavra, se a levamos em nós. Se fomos criados segundo esta “palavra” que é o próprio Filho, se na nossa vida decidimos seguir esta “palavra”, se escolhemos como caminho de vida esta “palavra” que é o Filho de Deus, se “ruminamos” esta palavra com a qual e pela qual fomos criados, a nossa configuração com esse Deus menino torna-se evidente porque a nossa vida, o nosso quotidiano, dia após dia, ano após ano, adquire esta imagem do Filho.
Nesta noite misteriosa, em que este menino nos foi dado, é Deus que se revela suscitando a ternura no interior do homem. “Menino – Filho” significa a sua proveniência para o interior do homem. O Filho não aparece no mundo como qualquer coisa de externo, de espectacular, de fascinante, de exótico. O Filho não desce como qualquer coisa de extraterrestre. É alguém que provém do interior da humanidade. De facto, até a genealogia de Cristo nos faz ver que o Filho pertence à geração dos homens. Assim, a “palavra”, o Filho eternamente gerado pelo Pai, adquire na história a imagem que nós, homens, lhe tínhamos preparado. O Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nascido nesta noite como o “menino”, aceitando a nossa humanidade e, por consequência, o passageiro e o suceder de acontecimentos, leva-lo-ão à plena maturidade, que é aquela de Cristo nossa Páscoa. O Filho é, de facto, aquele que transporta no seu corpo as feridas da humanidade, para as conduzir à perfeição. Por isso, Isaías fala também de uma grande luz para a humanidade: “o povo que vivia nas trevas, viu uma grande luz”.
Com o pecado a humanidade foi-se sempre separado da imagem do Filho. A noite e as trevas tornaram-se familiares para o homem, um ambiente no qual não há vida, não se respira, numa palavra, não há amor. Mas a luz que ilumina é uma luz que aquece, que chega até aos abismos, aos meandros da escuridade. E este menino nasceu numa manjedoura! A manjedoura remete para a imagem do animal que se nutre, que come para viver. Depois de satisfeito afasta-se da manjedoura, dá as suas voltas, mas depois torna sempre lá. É o instinto da sobrevivência que reconduz o animal à manjedoura, à qual está ligado por um fio de dependência absoluta. É a imagem do homem decaído. É o homem que recusou a relação com o Pai e se orientou por si próprio, fazendo de si próprio o centro da criação e de todas as relações. É o homem que para sobreviver, para se realizar, se orientou de forma unilateral. Cada um de nós, de uma maneira ou de outra, assume um mesmo comportamento, entra nesta dependência das suas próprias paixões, do próprio pecado. O homem não peca porque é determinado a pecar, mas peca porque o mesmo princípio pelo qual Eva estendeu a mão ao fruto proibido: adquirir para si, apropriar-se, para se tornar alguém. Mas, ao apropriar-se, não se torna alguém, torna-se qualquer coisa, transforma-se em objecto. O homem peca, portanto, porque pensa em salvar-se. Assim o medo da morte, por exemplo, conduz o homem ao pecado para se salvar a si próprio, acreditando ainda hoje na voz da serpente que diz: “tornar-te-ás um Deus”. Cada um tem o próprio pecado no qual sempre se refugia, ao qual regressa, como o animal à manjedoura, porque pensa que isto lhe dá a vida, o torna forte, livre e realizado.
O homem já não estava capacitado de levantar o olhar para ver a Deus, a sua verdadeira imagem. O próprio Deus desceu e nasceu numa manjedoura, porque é o único lugar onde o homem tornará, e ali encontrará um olhar de imensa ternura, o olhar de Deus que olha misericordiosamente para o homem. Deus entra na história e se faz homem, porque o homem se tinha fechado na sua própria cultura, da qual retira a certeza e a garantia do seu existir. Deus faz-se homem para dar ao homem uma nova personalidade, uma nova identidade, recordando-lhe que foi criado à sua imagem, imagem de amor, de relação, de encontro.
Cada um de nós possui a sua própria manjedoura, escondida, da qual se envergonha, mas à qual há-de sempre voltar. Nesta noite que favorece o regresso ao coração, procuremos voltar ali sem temor, sem vergonha. Dirijamo-nos para lá e deixemo-nos surpreender por este olhar do Filho, que nos chama a fazer o primeiro gesto de ternura para com Ele, para descobrir que somos a imagem do amor e da sua ternura.
Não devemos, no entanto, fazer muitas promessas a nós mesmos nesta noite, promessas de melhoramento, propósitos daquilo que queremos melhorar no ano que se aproxima. Procuremos simplesmente compreender que este menino nos abraça e procura abraçar-nos naquilo que em nós possui uma maior marca de fragilidade. Quem sabe se esta noite não permanece assim misteriosa porque Deus assume a nossa natureza no seu Filho, abraçando cada um de nós numa relação de tudo pessoal, intima e, por isso mesmo, misteriosa.