Alegrai-vos sempre
no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos.
(II Leitura - Fil 4,
4)

O
Salmo responsorial deste terceiro domingo do Advento retoma o
cântico inserido na conclusão do chamado livro de Emanuel (Is
6-12). A primeira parte do cântico termina com o anúncio de um
futuro promissor para a comunidade que tirará “água com alegria das
fontes da salvação”; a segunda parte, porém, na perspectiva da
salvação já realizada, convida os habitantes de Sião à alegria e ao
júbilo pela salvação que o Senhor operou maravilhosamente. O hino
de louvor fundamenta-se na experiência alegre da salvação. A Igreja
retoma este texto profético consciente de que a plenitude da
salvação se actua em Cristo, o verdadeiro Emanuel: Deus
connosco.
O tema central e tradicional deste terceiro domingo de Advento é a
alegria “porque o Senhor está perto” (segunda leitura), ou melhor,
está no nosso meio como “salvador poderoso” (primeira leitura). De
facto, é ele que baptiza “no Espírito Santo e no fogo” (Evangelho);
o “fogo” na perspectiva de Lucas é o símbolo do Espírito Santo que
Jesus concede aos seus discípulos no dia de Pentecostes. Se a
mensagem do segundo domingo de Advento era fundamentalmente um
convite à conversão para que frutifique em nós o dom da salvação,
hoje somos convidados à alegria, fruto desse mesmo dom de salvação.
No domingo passado, a personagem principal era João Baptista que
convidava a preparar os caminhos do Senhor. Hoje a personagem
central é Jesus, aquele que concede o Espírito.
A advento, projectando-nos para o mistério da presença salvadora de
Cristo, deverá ser caracterizado pela alegria. Desde a Idade Média
o Advento tinha assumido um aspecto fortemente penitencial, este
domingo interrompia a penitência e era celebrado como uma festa, um
espécie de antecipação do Natal que se aproximava. O sentido
festivo e alegre era assinalado por alguns sinais exteriores, de
que são exemplo os paramentos de cor-de-rosa. Isto é ainda
possível, mas muito menos significativo porque o Advento perdeu
aquele aspecto penitencial pelo qual se assemelhava à Quaresma. De
qualquer forma, a liturgia quotidiana caracteriza-se
indubitavelmente pela exortação à alegria, interpretada como a
expressão imediata da fé que reconhece a proximidade do
Senhor.
A alegria cristã, de que falamos, não é vazia, sem sentido, porque
encontra o seu fundamento na presença de Deus que salva. Neste
contexto, podemos afirmar que a eucaristia é a alegria do nosso
peregrinar. Trata-se de uma alegria interior, profunda, que se
coloca na esfera da salvação, na procura sincera de Deus, na
persuasão firme de o possuir como herança, na certeza inabalável de
poder contar com Ele. Esta alegria é misteriosa, porque pode
coexistir com a dor física e moral, com a humilhação, a tentação e
a solidão. Paradoxo cristão, expresso de modo sublime por São
Francisco de Assis quando diz: “é tão grande o bem que espero que
qualquer pena me serve de deleite”. O homem pode ser rico, cheio de
saúde e, apesar de tudo, sentir-se profundamente insatisfeito. Se
não somos ricos interiormente, cheios de fé e de esperança,
dificilmente poderemos fazer a experiência da alegria cristã. A
espiritualidade cristã da alegria não deve, porém, atenuar em nós a
participação cordial dos bens deste mundo e a partilha alegre com
os homens, nossos irmãos. Pelo contrário, é na partilha fraterna e
alegre dos bens deste mundo que se exprimem os frutos da salvação
desejada por Cristo e a realização das palavras proféticas: “ o
Espírito do Senhor está sobre mim: enviou-me a anunciar a boa nova
aos pobres” (cântico do Evangelho - Is 61,1).